Alta de custos faz China agora exportar inflação

Entre outras exportadoras chinesas que subiram seus preços estão empresas de confecção e um atacadista de brinquedos, que subiu os preços cobrados nas novas encomendas, em 10% a 15%, desde o início de março


O aumento dos custos das matérias-primas e as limitações implacáveis das cadeias de suprimentos estão fazendo muitos exportadores chineses aumentarem os preços dos produtos que vendem ao exterior, gerando temores de que esses fatores possam aumentar as pressões inflacionárias globais.


A preocupação se aprofundou nos últimos dias, após um navio porta-contêineres ter encalhado e bloqueado a navegação pelo Canal de Suez, o que tensiona ainda mais as linhas de suprimentos globais já sobrecarregadas pela pandemia de covid-19 e por uma demanda maior que a prevista por chips de computadores e outros produtos.


Rene de Jong, diretor da Resysta, fabricante de móveis para ambientes externos com sede na cidade chinesa de Foshan, disse que planeja elevar os preços das novas encomendas em cerca de 7% no terceiro trimestre.


Isso ocorre em grande medida porque os preços dos produtos químicos e metais que são usados para produzir almofadas, espumas e estruturas nas fábricas operadas pela empresa na China e na Indonésia subiram rapidamente nos últimos meses. Os fretes de transporte marítimo, embora sejam, muitas vezes, pagos pelos clientes, também aumentaram cerca de 90% desde junho passado.


Entre outras exportadoras chinesas que subiram seus preços estão empresas de confecção e um atacadista de brinquedos - este último subiu os preços cobrados nas novas encomendas, em 10% a 15%, desde o início de março.


Os aumentos dos preços nas fábricas chinesas não são por si sós, necessariamente, suficientes para aumentar a inflação nos EUA e em outros países. Boa parte do impacto poderá ser absorvido pelas varejistas, por mais que isso possa apertar suas margens de lucros.


Além disso, os cálculos oficiais de inflação nos EUA contemplam muito mais do que os artigos de consumo importados. Antes da pandemia, mais de 60% dos gastos do consumidor nos EUA eram em serviços, como refeições fora de casa ou viagens, e não para produtos de consumo.


Mesmo assim, os aumentos de preços determinados por fábricas chinesas representam mais uma fonte de pressão altista sobre os preços mundiais, num momento em que o custo desde o da madeira serrada até o do aço e do algodão aumentou. Alguns economistas e investidores estão alarmados com a possibilidade de que os trilhões de dólares de estímulos americanos liberados mundialmente acabem levando a um índice de inflação maior do que o previsto pelas autoridades, principalmente se persistirem os recentes gargalos das redes de

abastecimento mundiais, embora haja discussões acaloradas sobre o grau de gravidade que o problema poderá assumir.


“Há, sem dúvida, o risco [de aumento da inflação]. Não é só a posição dos exportadores [que conta]. É tudo, desde os gargalos do transporte marítimo mundial até a ideia de que o estímulo possa liberar uma demanda maior do que a oferta é capaz de atender”, disse Nick Marro, analista da Economista Intelligence Unit. Mesmo assim, “é um tanto prematuro neste momento supor que vamos ver uma inflação galopante”.


Claramente está mais difícil para as indústrias de transformação chinesas que fabricam produtos para o restante do mundo manter os custos inalterados, principalmente depois que a pandemia e os lockdowns comprometeram seus lucros em 2020. No passado, as fábricas chinesas, que empregavam mão de obra barata, eram muitas vezes vetores para a manutenção dos preços mundiais mais baixos, desde dos jeans até dos sofás, mas isso é cada vez menos verdadeiro com a alta dos custos enfrentados por essas mesmas fábricas.


Os fretes marítimos, que dispararam com o congestionamento nos portos e episódios de escassez de contêineres, são parte do problema. Em alguns casos, os clientes pedem aos fornecedores chineses que compartilhem o ônus. Em outros, as fábricas chinesas estão pagando mais pela matéria-prima importada.



Por seu lado, os preços de muitas commodities permaneceram altos ou continuaram a subir, e algumas empresas estão optando por repassar esses custos.


Os preços dos produtos importados da China para os EUA aumentaram 1,2% nos últimos doze meses, a maior alta desde 2012, e boa parte desse aumento ocorreu no período de três meses encerrado em fevereiro, segundo dados do Departamento do Trabalho.


Um ponto positivo aos consumidores americanos é que o dólar permaneceu mais forte do que o previsto pelos economistas, o que dá aos consumidores que utilizam a moeda mais poder de compra ao pagar por importados. Além disso, muitas famílias acumularam poupanças durante a pandemia, elevando seu poder de compra.


Os preços estão aumentando “principalmente devido ao fortalecimento da demanda”, disse Robin Xing, economista do Morgan Stanley. “As indústrias vão encontrar maneiras de repassar custos nestas condições. Não vão minar a recuperação mundial.”


Algumas fabricantes chinesas, por seu lado, disseram que relutam em subir os preços por temer a perda de participação de mercado, e que preveem o desaquecimento dos custos das matérias-primas.


No entanto, há poucos sinais, no momento, de que as forças que puxam os custos para cima na China percam impulso em breve.


Ni Fang, diretora da Ji’an Huaerxin Shoes, fabricante de botas de trabalho da Província de Jiangxi que vende para a Europa e o Sudeste Asiático, disse que, após o Ano-Novo Lunar chinês, em fevereiro, começou a receber avisos de aumentos de preços dos fornecedores que iam de 10% a 30% para matérias-primas usadas em botas e em suas embalagens, entre as quais poliuretano, aço e papel. A fábrica reagiu subindo a maioria dos preços

em cerca de 5%.


Donos de fábricas e economistas também suspeitam que alguns compradores estejam acumulando estoques, o que eleva ainda mais a pressão sobre os preços.


Por Stella Yifan Xie — Dow Jones Newswires, de Hong Kong

30/03/2021

Fonte: Valor Econômico

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