Brasil importa cada vez mais resina plástica

Capacidade instalada não acompanha expansão da demanda e aumento das importações coloca em xeque a posição de exportador líquido do país



O consumo aparente de resinas plásticas manteve-se em expansão em 2021 no Brasil, porém, mais uma vez, as importações abocanharam fatia adicional no mercado doméstico, sinalizando que a capacidade instalada local não cresce ao mesmo ritmo da procura e colocando em xeque a posição do país como exportador líquido de resinas.


“As projeções mostram que 2021 foi recorde em consumo aparente. Logo, há demanda interna. Mas o Brasil está exportando cada vez menos resina e importando mais”, diz o sócio-fundador da MaxiQuim, João Luiz Zuñeda.


Na Activas, uma das maiores distribuidoras de resinas do país, a percepção é a de que gargalos logísticos e custos em ascensão não contiveram as compras externas. “As petroquímicas brasileiras estão exportando menos e atendendo mais ao mercado local. E mesmo com as dificuldades logísticas, tem entrado mais importado”, diz o presidente Laercio Gonçalves.


Levantamento da MaxiQuim, com base em dados da Comissão Setorial de Resinas Termoplásticas (Coplast) da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), mostra que o avanço mais emblemático dos importados se deu no polietileno (PE), cujas compras externas já correspondem ao dobro das exportações.


Em 2019, o Brasil exportou US$ 793 milhões entre os diferentes tipos de PE e importou US$ 888 milhões, com déficit de US$ 95 milhões. No ano seguinte, as exportações recuaram a US$ 627 milhões, enquanto as importações cresceram para US$ 894 milhões. Em 2021, até novembro, as importações de PE haviam alcançado US$ 1,48 bilhão, frente a exportações de US$ 796 milhões, resultando em déficit de US$ 684 milhões.


Mais da metade da resina importada veio dos Estados Unidos e 15,6%, da Argentina. Nos últimos anos, houve forte adição de capacidade da PE nos Estados Unidos, na esteira da exploração do gás de xisto, que reativou a petroquímica americana e elevou globalmente a barra da competitividade - já que reduziu o preço da matéria-prima petroquímica naquela região.


Já o consumo aparente de PE no Brasil avançou de 2,64 milhões de toneladas em 2019 para 2,88 milhões de toneladas em 2021.

Considerando-se as principais resinas termoplásticas - PE, polipropileno (PP), PVC, poliestireno (PS) e PET -, o consumo nacional deve ter chegado a 6,64 milhões de toneladas em 2021, acima do recorde anterior de 6,47 milhões de toneladas, registrado em 2020.


“O mercado continua crescendo. Se a indústria petroquímica não investir, vai depender cada vez mais das importações”, observa Zuñeda, da MaxiQuim. “Os polietilenos já estão contribuindo para o déficit da indústria química”.


No ano passado, o déficit na balança comercial de produtos químicos bateu novo recorde, com US$ 46,2 bilhões e alta de 51,8% ante 2020. O saldo negativo superou as projeções mais pessimistas da Abiquim, que apontavam déficit de US$ 45 bilhões, e foi 44,4% maior que o recorde anterior, de US$ 32 bilhões, visto em 2013.


As importações também foram históricas em 2021, com US$ 60,7 bilhões e 60,5 milhões de toneladas, equivalentes a crescimento de 46,7% e 17,4%, respectivamente. No geral, o aumento foi puxado por produtos orgânicos e para o agronegócio. Em relação à origem, o destaque ficou com a Ásia.


“O Brasil está perdendo oportunidades e esse cenário pode se agravar”, alerta Zuñeda. O fim antecipado do Regime Especial da Indústria Química (Reiq), que estava descartado e voltou à pauta via medida provisória editada pelo governo na virada do ano, coloca mais pressão sobre o setor. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que o fim abrupto do benefício fiscal, que reduz as alíquotas de PIS e Cofins sobre matérias-primas petroquímicas, torna inviável a operação de diferentes parques industriais e pode levar ao fechamento de até 85 mil empregos.


Globalmente, segundo Zuñeda, 2022 deve ser mais um ano de preços elevados de petroquímicos, pressionados por energia e matérias-primas mais caras. Mas os spreads (margens) históricos vistos no ano passado não devem se repetir, em razão do maior equilíbrio entre oferta e demanda no mercado internacional.


Por Stella Fontes — De São Paulo

01/02/2022

Fonte: Valor Econômico