Brasil pode ter lugar nas cadeias globais

Atualizado: Mai 20

Necessidade de diversificação de fontes de abastecimento traz oportunidades para o país

Igor Rocha, diretor de economia da Abdib: “Temos que trabalhar para fechar mais acordos comerciais, inserir o país em novos mercados” — Foto: Silvia Zamboni/Valor



O rompimento das cadeias globais de suprimentos provocado pela pandemia de covid-19 jogou luzes sobre a capacidade do setor industrial de fornecer produtos estratégicos para seus mercados domésticos e externos. A preocupação em torno dessa capacidade deve intensificar um processo que já ocorria antes da disseminação do Sars-Cov-2: a regionalização das chamadas cadeias globais de valor (CGV), um arranjo notabilizado pela dispersão das etapas de produção por vários cantos do mundo. A nacionalização dessas cadeias também voltou ao debate.


A regionalização ocorre na direção de tornar as cadeias mais resilientes ou, em outras palavras, capazes de voltar rapidamente às operações normais após rupturas, algo que a pandemia evidenciou.


É uma necessidade que foi sentida, por exemplo, em 2011, quando um tsumani atingiu o Japão e provocou o acidente nuclear de Fukushima, interrompendo o fornecimento de alguns insumos industriais.


Esse movimento em direção à regionalização, aliado à disposição dos países desenvolvidos de estabelecer uma economia ambientalmente sustentável, pode ser tanto uma oportunidade quanto uma janela perdida para a indústria brasileira nos próximos anos, segundo especialistas.


País considerado fechado para o comércio global, o Brasil teria que resolver problemas históricos - infraestrutura arcaica, educação deficiente, sistema tributário anticompetitivo - ao mesmo tempo em que coordena políticas para se acoplar a essas redes em reconfiguração. Seria algo como trocar um pneu com o carro em movimento. Mas não há muitas outras opções.


Para Renato da Fonseca, economista-chefe da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o país tem que aproveitar o momento e enfrentar esse processo. “A diversificação de fontes de abastecimento poderia ser a chance de o Brasil embarcar nas cadeias globais de valor, já que perdeu a primeira onda desse movimento. A questão é: o país será capaz de ser esse candidato a essa vaga?”, questiona.


É difícil, segundo o economista. Mas ele vê caminhos. “Podemos dar um salto de competitividade ao longo do tempo com a aprovação de projetos que estão no Congresso, de energia mais barata, marco regulatório de ferrovias, maior competição em

cabotagem, concessões”, cita. “Mas a reforma tributária, que é crucial, está parada.”


Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), lembra que as CGVs têm se transformado em parte porque, após a crise 2008-2009, o comércio global começou a crescer menos que o PIB mundial e, a partir de então, ficou mais difícil acelerar a performance econômica com estratégias de exportação. Assim, o avanço das

cadeias globais - liderado pela indústria - chegou a um limite, que os efeitos econômicos resultantes da pandemia podem exacerbar.


“Não quer dizer que exportação, comércio exterior e as cadeias globais perderam importância, mas a crise gerada pela pandemia tende a acelerar esse processo de reconfiguração.” Para Cagnin, se ainda não há uma tendência clara sobre a direção dessas cadeias, é certo que elas precisam ser mais resilientes, o que passa pela regionalização. “É provável que tenhamos menos cadeias globais e mais cadeias regionais, com elos mais próximos dos mercados consumidores. Há tendência maior de diversificação geográfica, de empresas, dos fornecedores para compensar eventuais interrupções como as que ocorrem agora”, diz.


Uma característica do processo de transformação das cadeias globais de valor é que ele tem sido puxado pelo avanço tecnológico (digitalização, robotização e inteligência artificial, etc) e certo protecionismo, mas também por questões ambientais. Nesse novo contexto, o Brasil poderia investir no desenvolvimento de áreas como a bioeconomia, economia de baixo carbono, num momento em que União Europeia, China e Estados Unidos ampliam compromissos com a chamada economia verde.


“Essa grande mudança estrutural dinamizada pela tecnologia será cada vez mais associada à busca de sustentabilidade no pós pandemia”, diz Cagnin. Neste sentido, cresce a necessidade de um resgate da agenda de inovação no país, fundamental para fortalecer um sistema industrial alinhado a essas tendências globais. “Temos sido muito displicentes em fortalecer o sistema de inovação. O contingenciamento de recursos pelo governo federal nessa área tem sido brutal, em especial nos últimos dois anos”, lembra o economista. “O tema do ajuste fiscal é importante, mas a forma como tem sido feito compromete o futuro, e o futuro é inovação.”


Igor Rocha, diretor de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), diz que a pandemia chamou ainda mais atenção para o esgarçamento do tecido industrial brasileiro, que deixou de produzir uma ampla variedade de itens. “Ao longo do tempo, ficamos dependentes de importação”, diz. Mas isso não quer dizer que o caminho é voltar ao modelo de substituição de importações. “Temos que trabalhar para fechar mais acordos comerciais, inserir o país em novos mercados.”


Ele também chama atenção para o desenvolvimento de uma manufatura mais “verde”. Estudos têm mostrado que os setores de média e alta tecnologia em termos relativos aos de baixa têm se tornado menos poluentes, observa. Mas por enquanto o país segue na contramão, com a diminuição do peso dos segmentos de média e alta tecnologia no setor industrial.


Para o economista, os formuladores de políticas públicas deveriam caminhar para a confecção de um plano de desenvolvimento tecnológico-industrial articulando o sistema de inovação (Finep, ICTs), à universidade pública, investidores e o setor privado. Neste sentido, é necessário superar o debate sobre ter ou não política industrial, diz Rocha.


“Nos últimos anos, o tema ficou muito associado a protecionismo e ineficiência. Mas, hoje, política industrial é desenvolver manufatura com baixa pegada de carbono, é ir atrás de acordos comerciais, incentivar a formação de centros de tecnologia nas universidades”, diz Rocha, chamando atenção para os equívocos de iniciativas como a dos campeões nacionais do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que injetou bilhões em empréstimos e subsídios em segmentos de média e baixa tecnologia nos anos 2000.


“Foi equivocado, mas precisamos superar e avançar nesse debate”, diz Rocha, para quem uma política industrial pode ou não ter participação do BNDES. O governo, contudo, teria que recuperar a capacidade de formular políticas para a área, diz. “Hoje, não há no governo interlocutor para esse tema com a sociedade. Falta um entendimento de que isso é importante”, afirma.


Lá fora, todas as grandes potências industriais têm desenhado estratégias para alavancar o setor, observa Cagnin, do Iedi. “Temos falado sobre isso desde 2012. Estados Unidos, Coreia do Sul, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, China, Índia. Todos estão investindo pesadamente nisso.” E a julgar pelos programas de recuperação da pandemia, como no caso da UE e como visto nas declarações do presidente dos EUA, Joe Biden, e da China, a política industrial deve continuar como a coluna vertebral desses países, observa.



Por Ana Conceição — De São Paulo

17/05/2021

Fonte: Valor Econômico