Certificado digital será inevitável para volta ao normal

Certificado digital será importante para viagens, jogos em estádios, concertos, navios de cruzeiros e pode funcionar como 'empurrão' para incentivar a vacinação


Baixei meu passaporte de vacinação nos EUA. Não se chamava assim, claro. Era, em vez disso, um Excelsior Pass, emitido pelo Estado de Nova York. Ele confirma que eu fui vacinado e tem um QR Code que pode ser escaneado quando eu quiser ir ver um jogo de basquete, por exemplo. Ele mostra ainda a última vez em que o portador testou negativo para a covid-19.


O Excelsior Pass, desenvolvido com a IBM, é a primeira prova de vacinação emitida nos EUA. Ao menos 17 outras estão vindo.

Na mídia e no governo, os passaportes de vacinação são polêmicos. Gurus e políticos de direita os denunciaram como uma ameaça à liberdade pessoal- como no caso da exigência de uso de máscara. Muitos esquerdistas temem que eles exacerbarão ainda mais a “desigualdade da pandemia” pois a taxa de vacinação entre pobres é baixa. A Casa Branca já disse que os americanos não serão obrigados a “obter um único atestado de vacinação”.


Por outro lado, o “The Washington Post” informou no fim de março que o Departamento de Saúde dos EUA está buscando “desenvolver uma maneira padronizada de emitir atestados... que permitirão que os americanos comprovem ter sido vacinados... num momento em que as empresas tentam reabrir”. Jeff Zients, coordenador do combate à covid-19 de Biden, disse que a meta do governo é “contribuir para garantir que qualquer solução nessa área seja simples, livre, de domínio público, acessível (...) e criada, desde o início, de modo a proteger a privacidade”.


Isso não soa exatamente como se o governo se opusesse à ideia de passaportes de vacinação. E, de fato, não se opõe. Pode não haver um passaporte nacional único, mas os Estados e o setor privado estão desenvolvendo certo número de aplicativos

de comprovação. Independentemente de como forem chamados e da oposição, esses passaportes de vacinação serão inevitáveis para qualquer volta a algo que se pareça com interação normal.


Por exemplo, as universidades nos EUA precisarão deles em breve. Várias já estão exigindo que os novos alunos do próximo semestre sejam vacinados. Como as universidades foram uma fonte relevante de infecção - com 535 mil casos - não espanta que queiram um corpo discente vacinado.


Brian Clark, porta-voz da Brown University, disse que houve pouca oposição. “A maioria das pessoas reconhece que, quanto antes a vasta maioria da nossa comunidade estiver vacinada, mais cedo poderemos voltar a uma experiência de campus mais tradicional.”


Os americanos que quiserem tirar aquelas férias na Europa há muito adiadas precisarão de passaportes de vacinação. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse ao “The New York Times” que, como os EUA usaram vacinas aprovadas pela European Medicines Agency (EMA, o órgão regulador da UE), os americanos poderão viajar para países da UE. Mas, para isso, terão de provar que foram vacinados.


Há várias semanas ocorrem discussões técnicas entre autoridades da UE e dos EUA sobre como fazer os atestados de vacinação de cada lugar serem amplamente compreensíveis por qualquer aparelho leitor, para que os cidadãos possam usá-los para viajar sem restrições.


Inevitavelmente, as empresas aéreas terão de fiscalizar o cumprimento de qualquer exigência de atestado de vacina por países europeus - o que significa que muitos voos internacionais ficarão restritos às pessoas que foram vacinadas e que possam provar isso.


E por aí vai. Os esportes profissionais vão querer usar passaportes de vacinação quando forem autorizados a encher os estádios. Salas de concerto e navios de cruzeiro também, assim como quase todos os lugares em que as pessoas entram em contato próximo.


Os passaportes de vacinação não são ameaça à liberdade, como proclamam os opositores. Muitas pessoas passaram a encarar como normais exigências de medidas de segurança a que resistiram no começo, como cintos de segurança dos automóveis e capacetes para motociclistas. “Todo mundo está farto de máscaras”, escreveu recentemente Donald G. McNeil Jr., o repórter da pandemia do “NYT”. “A única maneira de acabar com elas é com a vacinação. E precisamos saber quem está vacinado.”


O Excelsior Pass não só mostra que estou vacinado; mas também monitora os testes de covid-19. Alguns estádios, por exemplo, permitem a entrada de não vacinados desde que consigam mostrar um teste PCR ou um teste rápido de antígeno negativo realizado nas últimas 72 horas. Acho que a maioria dos outros lugares fará o mesmo.


Assim, pessoas que têm objeções à vacina anticovid-19 não podem reclamar de sofrer discriminação. Podem ir a jogos ou shows e sentar ao lado de vacinados.


Mas isso pode ser um incentivo à plena vacinação. Imagine querer assistir a jogos sem ter sido vacinado. A pessoa terá de fazer um teste de covid-19 antes de cada jogo. Ser vacinado, por outro lado, significa nunca ter mais de fazer um teste. A exigência de teste torna-se, assim, o que economistas comportamentais gostam de chamar de “empurrão” para incentivar a vacinação.


Richard Thaler, economista comportamental da Universidade de Chicago, vencedor do Nobel, diz que os passaportes poderão dar sensação parecida à de um privilégio aos que foram vacinados”, o que atrairá relutantes a se vacinar.


Não faz sentido argumentar contra esses passaportes. Eles são simplesmente úteis demais para serem deixados de lado. Assim que estiverem em uso para viagens ou eventos, até opositores provavelmente abrandarão suas objeções.


Basta imaginar chegar ao controle de passaporte em Paris, pegar seu telefone, observar a autoridade escanear seu passaporte de vacina e depois acenar que você pode passar. Isso vai dar uma sensação quase tão boa quanto a de ser vacinado pela primeira vez. E indolor.


Por Joe Nocera — Bloomberg

03/05/2021

Fonte: Valor Econômico