China financia para internacionalizar as suas empresas

Atualizado: Set 9

O interesse da China na América Latina é muito mais econômico do que geopolítico. A China quer participar do jogo da globalização, assim como fizeram o Japão e a Europa a certa altura


Para Stephen Kaplan, os EUA não devem levar a disputa com os chineses na América Latina para o cunho geopolítico — Foto: Divulgação


A tentativa de internacionalizar suas empresas e colocá-las na dianteira de uma economia globalizada é - mais do que qualquer objetivo geopolítico - a grande motivação na China ao promover investimentos e distribuir financiamento na América Latina.


A tese aparece no recém-lançado “Globalizing Patient Capital - The Political Economy of Chinese Finance in the Americas” (globalizando capital paciente, a política econômica das finanças chinesas nas Américas), ainda sem tradução em português, que tem ganhado destaque em fóruns sobre a presença cada vez maior de Pequim na região.


Stephen Kaplan, o autor, é professor de ciência política e relações internacionais da Universidade George Washington (EUA).


''Não há melhor maneira de entrar em novos mercados e ganhar participação do que pela via do financiamento.”

A China já empresta mais dinheiro do que agências multilaterais aos países latino-americanos. Para o professor, que já foi analista econômico do Federal Reserve de Nova York e fez uma temporada de pesquisa na USP, os EUA não devem levar a disputa com os chineses na América Latina para o lado geopolítico - “que é como a comunidade de segurança americana gosta de enxergar” - e sim priorizar mecanismos de financiamento ao investimento privado.


A seguir, os principais trechos da entrevista virtual que foi concedida por Kaplan ao Valor:


Valor: Qual é a essência da estratégia adotada pela China ao avançar tanto com investimentos e financiamento a projetos na América Latina? Trata-se de ampliar o peso geopolítico e fincar bandeira em um espaço tradicionalmente visto como zona direta de influência dos EUA?


Stephen Kaplan: É uma questão menos geopolítica, como talvez realmente ocorra no Leste da Ásia. O interesse da China na América Latina pode ter reflexos geopolíticos, mas é muito mais econômico. Tome-se uma fotografia do processo de globalização nas últimas décadas. A China quer participar do jogo, assim como fizeram o Japão e a Europa a certa altura.


Por muito tempo, o yuan esteve desvalorizado ou abaixo de seu valor potencial. Isso deu estímulo às exportações chinesas e permitiu o acúmulo de reservas. Primeiro, a China compra grandes quantidades de títulos do Tesouro americano. Depois, passa a haver um incentivo para buscar ativos de maior rentabilidade e diminuir o dólar-centrismo. O que Pequim começa a fazer é uma promoção internacional mais agressiva do comércio e de investimentos, alavancando a presença global de suas empresas, em vez de apenas adquirir papéis emitidos nos EUA.


Valor: Como se dá esse processo?


Kaplan: A China tem poupança em larga escala e grandes bancos de fomento. Não há melhor maneira de entrar em novos mercados e ganhar participação do que pela via do financiamento. Observe o caso da geração nuclear, um setor em que a Rússia tem peso importante. A China está financiando uma nova usina na Argentina [85% de um custo total estimado em cerca de US$ 8 bilhões].


Há um processo em curso de internacionalização das empresas chinesas e uma tentativa de internacionalização do yuan. Isso remete à própria forma como a China criou grandes indústrias no âmbito doméstico, com investimento pesado e subsídios, aumentando significativamente a escala.


Valor: Quais são as características mais marcantes do financiamento chinês à América Latina em relação a outros financiadores?


Kaplan: O prazo dos empréstimos chineses é, em média, de 17 anos - contra cinco do financiamento privado. A China não trabalha com taxas de juros muito baixas, mas tem a capacidade de oferecer taxas um pouco mais baixas do que seus concorrentes. Hoje, ela já concede mais crédito a países da América Latina, como proporção do PIB, do que organismos ou agências multilaterais.


No livro, eu uso muito o termo ‘capital paciente’. É uma expressão surgida nos anos 1980, em economias do Leste Asiático, com uma relação muito forte entre bancos, empresas do setor produtivo e o Estado para aumentar a escala dos investimentos e da economia ao longo do tempo. A China transpõe esse modelo para o sistema internacional. Isso significa uma disposição do Estado, ou de braços do Estado como bancos públicos, de aceitar um grau de tolerância mais alto nos financiamentos para aumentar sua presença econômica.


''A China já concede mais crédito a países da América Latina do que organismos ou agências multilaterais.”

Valor: O que o sr. quer dizer com grau de tolerância mais elevado?


Kaplan: Dentro da estratégia de ampliar a participação de mercado das empresas chinesas, Pequim tem sido muito assertiva em usar subsídios domésticos para estimular seus bancos a fazer mais empréstimos internacionais e ter um grau de tolerância ao risco maior do que normalmente teriam sem subsídios.


Em termos de condicionalidades das operações, principalmente na comparação com bancos tradicionais e com agências multilaterais de crédito, a China tende a ser mais micro do que macro. Ela não vai olhar tanto se um país está com déficit fiscal ou nas contas externas, mas se engaja em criar um ambiente favorável, com cláusulas comerciais, às suas empresas para

viabilizar os ganhos de mercado.


Valor: Que tipo de cláusulas?


Kaplan: Usar maquinário, equipamentos, locomotivas, turbinas e até mão de obra da China em alguns casos. Do lado chinês, não há cobranças sobre a disciplina orçamentária de um país. Nos organismos multilaterais de crédito, normalmente se impõe alguma condicionalidade fiscal ou macroeconômica. Pequim adota uma política de não interferência em assuntos internos. Pode até fazer alguma recomendação fiscal ou macroeconômica, mas sem que isso esteja vinculado às operações de financiamento. O que existe, em vez disso, para assegurar o pagamento futuro? A China usa recursos naturais, commodities e até terras como garantia das dívidas.


Valor: Qual é o custo-benefício de um país tomar crédito da China?


Kaplan: Do lado dos benefícios, trata-se de um crédito barato, sobretudo para projetos de infraestrutura. Na América Latina, os fluxos de capital têm um histórico de muita volatilidade. Os chineses têm a disposição de emprestar por prazos longos e, eventualmente, até de reestruturar esse crédito.


Por outro lado, a China é uma negociadora muito dura e que coloca muito peso no relacionamento Estado-Estado. Gosto de dar o exemplo da Argentina: quando o governo Mauricio Macri travou o projeto de duas usinas hidrelétricas na Patagônia, devido às sensibilidades ambientais, a China colocou a Casa Rosada contra a parede. Ela lembrou que, se a Argentina não levasse adiante o projeto das hidrelétricas, se reservava o direito de pular fora do financiamento de uma ferrovia muito importante [Belgrano Cargas] para o desenvolvimento logístico do país.


Valor: Tudo isso não amarra indevidamente os países tomadores de empréstimos chineses, via cláusulas comerciais ou garantias futuras que envolvem recursos naturais e até terras, como o sr. mencionou?


Kaplan: Quando você olha para a relação custo-benefício, particularmente em uma região que tem lutado contra a dependência de commodities, deve-se considerar que o financiamento chinês pode acentuar essa dependência. Se os governos nacionais apostam em projetos de infraestrutura que realmente geram crescimento, excelente. O que temos visto, nos financiamentos chineses, é que, embora haja menos condicionalidades macroeconômicas, há muitas garantias em petróleo e outras commodities. Em última instância, se esses projetos não são sustentáveis e não potencializam o crescimento, significa apenas usar essas commodities para expandir a capacidade fiscal de curto prazo e maximizar o endividamento de longo prazo. É hipotecar o futuro.


Valor: O financiamento chinês não surge, então, como alternativa viável para governos fiscalmente irresponsáveis e sem nenhuma vontade de ajustar as finanças públicas?


Kaplan: Fala-se muito na armadilha do endividamento [“debt trap”], mas não acho que seja necessariamente isso. O que a China faz é dizer: ‘Não somos responsáveis por sua governança local. Vamos investir e ampliar nosso portfólio. Vocês decidem o que fazer e são responsáveis pela governança’. Quem for oportunista e clientelista também pode ter dinheiro chinês, mas verá como reflexo do financiamento um menor crescimento futuro. Em última instância, em vez de uma armadilha de endividamento, pode-se ter a armadilha do credor. A China pode investir na Venezuela pensando em ampliar mercado para suas empresas. Mas, se os investimentos são mal feitos e não têm retorno, é a China - como credora - que pode ter dificuldades em ver seu dinheiro de volta.


Valor: O sr. identifica uma crescente dependência da América Latina, principalmente em termos de financiamento, em relação à China?


Kaplan: O comércio Brasil-China é três vezes superior ao comércio Brasil-EUA. É difícil ignorar essa realidade. Na pandemia, um país como o Brasil precisava de toda e qualquer vacina disponível - não importa se dos EUA, do Reino Unido, da China. E Pequim se dispôs a cooperar. Chega a ser até meio intuitivo, para uma região historicamente tão dependente de uma única superpotência do ponto de vista comercial ou financeiro, diversificar suas parcerias. E a China oferece isso.


No entanto, é preciso estabelecer uma diferença entre o Brasil e outros países da região. Um país como o Brasil tem o poder de diversificar sua estrutura financeira. Pode buscar financiamento privado, de mercado, de agências multilaterais. Isso lhe dá mais autonomia e força no momento de negociar acordos e empréstimos. Ao mesmo tempo, para um país menor e mais dependente da China em termos de comércio e financiamento, os governos têm menos margem de manobra para fugir das condicionalidades chinesas.


Observe o caso de um país como o Equador. Eles usam uma grande quantidade de suas receitas futuras de petróleo para gastar já. Podem ter alguma margem de manobra para reestruturar seus empréstimos, mas nem de longe a mesma habilidade de uma economia como a brasileira.


Valor: Em seu livro, o sr. observa que a China tem aproveitado períodos de fraqueza da economia, como o pós-crise financeira global de 2008 ou a Lava-Jato no Brasil, para comprar ativos e fazer investimentos. No entanto, parece não ter havido um novo “boom” de investimentos chineses durante a pandemia...


Kaplan: No último ano ou dois, enquanto a economia dava uma parada em todo mundo, passamos a ver um investimento pesado da China na diplomacia das vacinas e na cooperação em saúde: distribuição de máscaras, kits hospitalares, equipamentos de proteção, desenvolvimento conjunto de vacinas, como no caso do Brasil. E note que, do ponto de vista meramente comercial, tem sido uma forma de ampliar marcas chinesas - como a Sinovac - gastando muito menos do que investimentos em infraestrutura. Isso posto, a China continua expandindo sua presença em telecomunicações, energia, varejo, setor financeiro.


Valor: Diante de toda a pesquisa que o sr. fez, acha que os EUA respondem adequadamente aos avanços da China na América Latina?


Kaplan: Deixe-me responder em duas partes. No tocante à estratégia americana, temos visto, nos últimos quatro ou cinco anos, uma abordagem de fundo geopolítico e binária: alinhe-se com os EUA ou alinhe-se com a China. Essa linguagem não se mostra muito efetiva ou produtiva na América Latina. É uma região com países que prezam muito por sua soberania, que gostam de fazer suas próprias escolhas, baseados na relação de custo-benefício apresentada pelo credor.


Outra abordagem, mais recente, pode ser vista no Build Act [lei americana, aprovada em 2018, que subsidia investimentos privados nos países emergentes por meio de uma nova instituição financeira de desenvolvimento, a DFC]. Essa estratégia reconhece que os EUA estão competindo com a China na América Latina mas foca o lado econômico. É uma abordagem mais pragmática, que se pergunta o que a América Latina quer dos EUA. Em relação à China, qual é a vantagem comparativa dos EUA? É o setor privado. Então, que atue mais fortemente para incentivar investimentos privados no exterior. É mais inteligente.


Se pensamos em um setor como as telecomunicações e o 5G, por exemplo, o que a China oferece? Muito financiamento. Ela sinaliza que, em troca do uso de componentes da Huawei, ajudará no financiamento das novas redes. É superatrativo. Quanto mais os EUA levarem essa disputa para o cunho geopolítico, que é como a comunidade de segurança americana gosta de enxergar, mais terão chances de perdê-la sob a ótica da competição econômica. A América Latina precisa de investimento e financiamento. É onde os americanos devem se concentrar.


Por Daniel Rittner — De Brasília

24/08/2021

Fonte: Valor Econômico