Com cenário propício à exportação, analistas esperam saldo‘robusto’

Projeções para superávit giram em torno de US$ 55 bilhões e podem chegar a US$ 96 bi


Com a perspectiva de um cenário que se mostra muito mais favorável às exportações do que às importações, as projeções de analistas apontam para um superávit da balança comercial robusto neste ano, que ultrapassa os US$ 50,9 bilhões do ano passado. Em alguns casos as estimativas foram elevadas de fevereiro para março.


A MB Associados subiu sua projeção de US$ 46,6 bilhões para US$ 54,6 bilhões nesse período. A Tendências elevou de US$ 52,1 bilhões para US$ 53,8 bilhões. A AC Pastore estima saldo de US$ 96 bilhões, valor acima da média do mercado. A mediana de 14 consultorias e instituições financeiras consultadas pelo Valor Data no início de março indicava superávit de US$ 55,25 bilhões para este ano. A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) baixou a projeção de superávit que tinha ao início do ano, mas ela continua acima da mediana, em US$ 64 bilhões.


A combinação de real desvalorizado, preços de commodities em alta e recuperação do comércio mundial, com perspectiva de crescimento acima de 6% nos Estados e na China, principais destinos da exportação brasileira, tornam o cenário muito mais favorável para os embarques brasileiras do que para as importações, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.


Silvio Campos Neto, economista da Tendências, tem análise semelhante em relação ao impulso que o crescimento americano e chinês pode dar aos embarques brasileiros. Ele explica que o aumento de US$ 1,7 bilhão na expectativa de superávit comercial para 2021 da consultoria decorre da revisão das projeções para crescimento mundial neste ano, puxada pela melhora das expectativas para a economia americana - crescimento esperado de 6% - com a retomada já em curso sendo intensificada pelo novo pacote de estímulo fiscal. “A projeção para a China permanece em 8,3%, suficiente para sustentar os preços das commodities elevados, ainda que alguma correção seja esperada para o segundo semestre conforme as condições de oferta forem sendo normalizadas”, destaca.


É possível que o superávit seja ainda maior, indica Campos Neto, tendo em vista a possibilidade ainda de “surpresas positivas”, como o maior crescimento e maior fôlego das commodities e a provável estabilização do câmbio em patamares mais elevados que o esperado.


Ao mesmo tempo as importações, indica Vale, não devem crescer em ritmo acelerado, em consonância com as perspectivas da recuperação mais lenta da economia, sujeita aos efeitos de uma pandemia mais agressiva. “A expectativa de depreciação cambial mais intensa ajuda na composição de mais exportação e menos importação. Já achávamos que as importações teriam um crescimento baixo porque projetamos atividade fraca, com crescimento de 2,6% do PIB em 2021. Mas podemos ter importação ainda pior, a depender do encaminhamento mais agressivo da pandemia.”


A projeção da AC Pastore, de superávit próximo aos US$ 100 bilhões, está acima da mediana de consultores e bancos, mas baseia se também nos efeitos sobre as importações do baixo crescimento de PIB e na combinação de câmbio real depreciado e preços de commodities em alta com a recuperação do comércio mundial. A consultoria prevê também superávit de US$ 56 bilhões (3,8% do PIB) nas contas correntes.


A AEB tem atualmente projeção de saldo positivo de US$ 64 bilhões, mas sua estimativa ao início do ano era maior, de US$ 69 bilhões. José Augusto de Castro, presidente da AEB, diz que a projeção caiu em razão da alteração na expectativa de importações e do efeito plataformas de petróleo. O valor estimado para desembarques aumentou US$ 5 bilhões como resultado líquido entre a expectativa de importação maior de plataformas de petróleo e a projeção de importação menor dos demais bens. A estimativa para a exportação foi

mantida com crescimento de 13% em relação ao ano passado.


A substituição de importações, fenômeno que surgiu no segundo semestre do ano passado, conforme detectado em estudo do economista Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), tem origem, evolução e impacto ainda considerados incertos. Para analistas, a demanda doméstica fraca e também o desabastecimento de insumos são obstáculos a um avanço mais sustentado desse processo.


“Com o câmbio depreciado, importar fica mais caro, mas isso não significa necessariamente que a produção poderá ser feita internamente porque os preços internos também estão pressionados”, diz Vale. Ele lembra que há um desabastecimento na cadeia mundial que tem impactado a produção industrial como um todo e também teria efeitos em algum processo de substituição, que tende a ser pontual.



Por Marta Watanabe — De São Paulo

29/03/2021

Fonte: Valor Econômico