Em Junho, uma nova conexão com a Europa

Atualizado: Mai 20

Brasil terá ligação mais rápida com UE e também aderiu a projeto que chega a Ásia e Oceania

O novo cabo submarino de fibra óptica conectando o Brasil à Europa será inaugurado no dia 1º de Junho, com impacto geoestratégico e econômico nos dois lados do Atlântico. O evento coincide com rivalidade crescente entre os Estados Unidos e a China também pelo controle da infraestrutura digital mundial, enquanto a Europa tenta não ficar fora do jogo.


Cerca de 97% do tráfego na internet e US$ 10 trilhões de transações financeiras diariamente passam por cabos submarinos, segundo o Centro Europeu de Relações Internacionais (ECFR). Nesse cenário, a infraestrutura que faz a internet funcionar é cada vez mais um foco de competição geopolítica. Até agora, as conexões on-line entre a América Latina e a Europa transitam por servidores nos EUA.


A partir de Junho, o cabo EllaLink, construído pela empresa europeia de mesmo nome, ligará diretamente Fortaleza a Sines (Portugal). De alta capacidade, com 6 mil quilômetros no fundo do mar, vai conectar os principais hubs do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza) e da Europa (Lisboa, Madri e Marselha). Assim, uma mensagem de WhatsApp ou uma reunião por Zoom entre São Paulo e Paris terá um trânsito mais curto, em vez de 12 mil quilômetros entre Brasil-EUA-Europa.


Isso cortará pela metade a latência (tempo decorrido entre o comando dado e sua execução, um dos fatores de qualidade da conexão de internet) entre os dois continentes. Negócios digitais, serviços em nuvem, provedores de conteúdo, bancos eletrônicos, mídia de entretenimento e jogos se beneficiarão com o projeto, na avaliação da empresa.


O projeto custou cerca de € 150 milhões (R$ 961,7 milhões) e o cabo tem previsão de vida útil de 25 anos. EllaLink é uma empresa privada. A maioria de seu capital é de propriedade do Fundo Marguerite (França/Luxemburgo), que tem recursos aportados por instituições públicas europeias, a maior delas o Banco Europeu de Investimentos (BEI). O funding do projeto tem capital próprio da empresa e de clientes âncoras que fizeram o aporte durante a construção do cabo: consórcio científico Bella (GÉANT e RedClara), Emacon (da Ilha da Madeira); CV Telecom (Cabo Verde) e Telxius.


O sistema de cabos submarinos EllaLink consiste em quatro pares de fibras. E, segundo a empresa, tem o potencial de suportar 100 Tbps (terabits por segundo) entre a Europa e a América Latina. Comparando com um filme em Full HD (11 Gb por filme), significa capacidade de transmitir via streaming até 9 mil filmes por segundo. No formato 4K (50 Gb por filme), mais moderno, seriam 2 mil filmes por segundo.


Para Vincent Gatineau, diretor de marketing e vendas da EllaLink, a redução da latência e melhora no desempenho da rede são cada vez mais determinantes para diferentes tipos de atividades. A redução de alguns milissegundos na latência tem impacto na lucratividade de diversos tipos de negócios. “Latência é a nova moeda de nosso mundo digitalizado’’, diz o executivo, repetindo frase de um parceiro da iniciativa.


Conforme Gatineau, a entrada em operação do cabo coincide com aumento do crescimento da demanda no Brasil. Tanto da parte dos clientes tradicionais, as grandes operadoras de telecomunicações, como de empresas europeias que querem estar bem conectadas a suas matrizes, e das próprias empresas chinesas que preferem evitar passar pelos EUA. Diz que o Brasil é também o terceiro país no mundo mais conectado a vídeos de jogos. E que aumenta o uso de aplicativos em tempo real sensíveis à latência, como streaming ao vivo, e investimentos significativos foram feitos por gigantes globais de tecnologia no Brasil.


A empresa prevê mais conteúdo e maior diversidade de data centers, grandes e pequenos, se propagando fora dos EUA. Assim, o conteúdo ficará mais próximo de onde é usado. O executivo aponta também a especificidade do mercado brasileiro com uma enormidade de provedores de serviços de internet que fornecem para empresas e particulares.


Há expectativa na EllaLink de que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o primeiro-ministro português, António Costa, falem na inauguração virtual dentro de duas semanas. O governo português enviou carta ao governo brasileiro convidando para uma representação a nível ministerial.


Globalmente, os satélites suportavam a maioria das comunicações da internet até o fim dos anos 1980. Com a fibra óptica, a troca de dados passou para cabos terrestres e submarinos, que se tornaram “balão de oxigênio’’ da tecnologia da informação e das telecomunicações e da economia digital. Quem possui cabos submarinos e as rotas que eles tomam são questões cada vez mais sensíveis em termos de proteção de dados, desenvolvimento econômico e nas relações externas, notam analistas do ECFR.


Até o ano passado, 406 cabos submarinos estavam em operação no mundo, transmitindo voz e dados de internet entre os países. Hoje, há dois grandes grupos investindo bilhões de dólares na instalação de cabos: o Gafa (Google, Apple, Facebook, Amazon) e investidores chineses. Na terceira posição estão operadores tradicionais, como Orange, da França. E em quarto, empresas como EllaLink.


A China controlava 11,4% dos cabos globalmente e 24% de cabos planejados no ano passado. “Os chineses estão investindo em todo lugar, agora tem cabo puramente chinês chegando a Marselha (ligando China-Paquistão-Europa)’’, diz Gatineau.


Pequim e Washington tem poder para impor regulamentações de padrões e facilitar condições favoráveis para seus operadores nos mercados digitais. Mas suas estratégias são diferentes para influenciar a infraestrutura na internet. “A China tenta desenvolver sua própria internet. E tem tecnologia diferente”, diz o executivo.


A rivalidade entre as duas maiores economias do mundo fez o Facebook abandonar um projeto de cabo submarino da Califórnia para Hong Kong, no ano passado. Isso porque o governo americano levantou preocupações de segurança com essa conexão direta com um território chinês. Agora, Facebook e Google planejam dois cabos conectando a América do Norte a Cingapura e Indonésia.


Alegando razão de segurança, os Estados Unidos boicotam vários produtores chineses de equipamentos de telecomunicações, o que dificulta o uso de cabos chineses por companhias americanas.


De seu lado, a Europa quer ser soberana na área digital, mas sem estratégia definida entre os 27 países membros. “A UE deve estabelecer padrões industriais, ajudar as empresas europeias de telecomunicações a obter partes de mercado no estrangeiro e proteger as infraestruturas de internet contra potências hostis’’, escreveram Arturo Varsellui, Matteo Colombo e Federico Solfrini em estudo publicado pelo Centro Europeu de Relações Internacionais (ECFR).


Outras regiões estão se movimentando, na medida do possível. Na quinta-feira, o Itamaraty anunciou a adesão do Brasil a outro projeto de cabo de fibras ópticas. Trata-se do Humboldt, iniciativa chilena que prevê a instalação do primeiro cabo submarino para interligar a América do Sul à Oceania e à Ásia. Também Argentina, Austrália e Nova Zelândia confirmaram participação. O projeto foi orçado em cerca de US$ 400 milhões.


O cabo terá sistema de oito fibras ópticas, capacidade inicial de transmissão de dados de até 400 Gbps e conectará Valparaíso (Chile) a Sydney (Austrália), passando por Auckland (Nova Zelândia), em um total de 14.810 quilômetros de extensão. A conexão da Austrália com a Ásia será feita por cinco cabos já implantados e em funcionamento.


No século XIX


O primeiro cabo submarino para telégrafo, que deu a conexão internacional ao país, foi um projeto de Irineu Evangelista de Sousa, o visconde de Mauá. Em 1872 ele recebeu o direito de instalar um cabo entre Brasil e Portugal, onde se conectaria a outros países europeus. Entre 1851 e 1868 houve propostas de instalar um cabo saindo dos Estados Unidos, mas elas

fracassaram. Em 1873 a concessão obtida pelo Visconde de Mauá foi cedida a Sir John Pender, o maior operador mundial da época. O cabo estava pronto em 1874 - oito anos após o primeiro cabo transatlântico ser instalado entre a Europa e os Estados Unidos. Pender também ficaria responsável por cabear toda a costa brasileira. Com o cabo vindo da Europa, os jornais no Brasil conseguiam publicar notícias do dia anterior em vez de esperar por semanas a mala postal que chegava de navio. A ligação telegráfica com o Caribe e a América do Norte começou a funcionar em 1892, feita pela Société Française Télégraphes SousMarins, que instalou um cabo que saía do Pará e chegava aos EUA, segundo o livro “História dos Jornais no Brasil”, de Matías M. Molina.




Por Assis Moreira — De Genebra

17/05/2021

Fonte: Valor Econômico