Escassez de insumo persiste e embalagem fica 30% mais cara

Pandemia de covid-19 desorganizou a cadeia de suprimentos e prazos para entrega de embalagens superam os 30 dias atualmente


O desarranjo imposto pela pandemia de covid-19 à cadeia de embalagens, em particular as de plástico e papelão, continua deixando marcas no mercado brasileiro. Além da dificuldade de acesso a determinados tipos de embalagem, os preços subiram 29,1% em 12 meses até fevereiro, segundo a Associação Brasileira de Embalagem (ABRE), refletindo o encarecimento de matérias-primas, o real desvalorizado e a procura muito acima da média desde meados do ano passado. A depender do tipo de material, o aumento foi ainda maior,

segundo fontes da indústria ouvidas pelo Valor.


Neste momento, a situação mais crítica está na cadeia do plástico, mais especificamente no polipropileno (PP),que tem diferentes aplicações além das embalagens flexíveis e rígidas. “Além do aumento dos preços, há falta de matéria-prima”, diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho.




Nos segmentos de papel e papelão, os produtores afirmam que não há falta de produto. Mas reconhecem que

os prazos de entrega foram ampliados de sete para mais de 30 dias com o elevado volume de vendas. “É um problema bom, porque indica que há atividade econômica”, pondera uma fonte.


A retomada mais forte do que o esperado, após a paralisação das encomendas no início da pandemia no país, ocorreu em um momento de estoques mais baixos de insumos e embalagens. E mesmo com recorde consecutivo nas vendas internas de resinas e na expedição de embalagens de papelão, ainda não houve normalização.


Para reduzir o risco de desabastecimento de PP nos próximos meses, a Braskem acaba de propor ao governo a adoção de cota de importação com redução da alíquota de 14%, a exemplo do que ocorreu com o PVC - para essa resina, a alíquota foi reduzida a 4% por três meses, com cota de 160 mil toneladas. O mercado de PP já está apertado e uma parada programada na central petroquímica do ABC, postergada do ano passado para o fim de março por causa da pandemia, pode ter impacto adicional na oferta da resina. Tanto a petroquímica quanto as indústrias consumidoras tinham até sexta-feira para apresentar suas propostas de cota - a menor proposta, apurou o Valor, estava em 60 mil toneladas, embora o mercado de PP seja maior do que o de PVC.


“Estamos negociando cota para o segundo trimestre, quando pode haver ruptura”, diz o vice-presidente de Olefinas e Poliolefinas da Braskem na América do Sul, Edison Terra. A companhia é a única produtora de PP no país. A proposta foi apresentada em reunião com a Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade (Sepec), do Ministério da Economia, na quarta-feira, da qual participaram 16 associações, entre as quais a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), que se queixaram da falta de embalagem.


Cerca de 70% da produção de embalagens, considerando-se os diferentes materiais, é destinada a bens de abastecimento, com destaque para alimentos. Principal consumidora, a indústria de alimentos é também a mais afetada pelo desequilíbrio entre oferta e demanda, que só deve ser corrigido no início do segundo semestre no caso do plástico. “No mercado de embalagens de papel e papelão ondulado, a previsão de regularização nas entregas é de médio prazo, a depender da evolução da economia”, diz a presidente da Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel), Gabriella Michelucci.


As matérias-primas representam entre 60% e 70% do custo das embalagens. Desde o início de 2020, as principais resinas termoplásticas subiram mais de 100% no mercado doméstico, acompanhando as cotações internacionais e câmbio. Nesse período, o polietileno de baixa densidade (PEBD, muito usado em alimentos) ficou R$ 7.646 por tonelada mais caro, superando os R$ 15.000 por tonelada. O PP teve acréscimo de preço de R$ 6.826 por tonelada, segundo índices das consultorias ICIS e Platts.


Já as aparas de papel do tipo 2, usadas nas caixas de papelão, praticamente triplicaram de preço no mesmo período, para R$ 1.450 por tonelada em março, segundo a Fastmarkets RISI. A fibra reciclada representa a base da indústria de embalagens de papelão ondulado, com peso de cerca de 70%, e a coleta seletiva foi prejudicada com a pandemia. “Os estoques abaixaram de forma importante, mas não houve ruptura, e sim aumento de custo”, afirma Gabriella.


De acordo com o presidente da ABRE, Marcos Barros, o pagamento do auxílio emergencial e mudanças nos hábitos de consumo derivadas da pandemia, como o deslocamento da alimentação para dentro do lar, o forte crescimento do comércio eletrônico e o delivery sustentaram a produção de embalagens no ano passado.


“O auxílio emergencial foi o pilar central da possibilidade de consumo e trouxe para o mercado aqueles que estavam na margem, e não consomem regularmente”, explica o executivo. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 4,1% no ano passado, a produção física de embalagens cresceu 0,5%. “Não podemos falar que a indústria de embalagens sofreu [com a pandemia]”, acrescenta.


O ritmo de produção se mantém forte no início de 2021 e os estoques ao longo da cadeia de valor ainda não foram totalmente reconstituídos. Em fevereiro, segundo a prévia da Empapel, as expedições de caixas, chapas e acessórios de papelão ondulado alcançaram 323,5 mil toneladas, com alta de 12,1% ante o mesmo mês de 2020, marcando o oitavo recorde consecutivo em volume na comparação interanual. Com esse desempenho, a produção acumulou alta de 8,7% no ano.


Em nota, a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) diz que “não há falta de papel para o mercado de embalagens, especialmente o papel cartão, voltado para e-commerce e delivery” e as empresas trabalham para se adequar à forte demanda, com produção acima dos níveis pré-pandemia.


Em 12 meses até fevereiro, indica a entidade, a demanda de papel cartão no país alcançou 657 mil toneladas, alta de 9,4% na comparação com os 12 meses anteriores. Ao mesmo tempo, a produção somou 770 mil toneladas nesse período. Somada à importação de 52 mil toneladas, totaliza oferta de 822 mil toneladas. “As empresas produtoras projetam que o mercado deve se estabilizar rapidamente nos próximos meses”, acrescenta a Ibá.




Por Stella Fontes — De São Paulo

29/03/2021

Fonte: Valor Econômico