EUA querem criar cadeia de suprimento hi-tech sem a China

Governo americano negocia com empresas e países aliados a formação de cadeias de suprimento seguras de produtos estratégicos, como chips, baterias e metais de terras-raras, que não dependam da China




O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, deve assinar uma ordem executiva ainda neste mês para acelerar os esforços de formação de cadeias de suprimento de chips e outros produtos importantes do ponto de vista estratégico que sejam menos dependentes da China, em parcerias com países como Taiwan, Japão e Coreia do Sul.


O decreto determinará o desenvolvimento de uma estratégia nacional para cadeias de suprimento. A expectativa é recomende cadeias que sejam menos vulneráveis a perturbações, como desastres e sanções de países hostis. As medidas se concentrarão nas áreas de semicondutores, baterias de veículos elétricos, metais de terras raras e produtos médicos, segundo um rascunho obtido pelo “Nikkei”.


O documento indica que “trabalhar com aliados pode levar a cadeias de suprimentos fortes e resilientes”, oque sugere que as relações internacionais serão um ponto central do plano. Washington deve buscar parcerias com Taiwan, Japão e Coreia do Sul para a produção de chips, e com economias da região Ásia-Pacífico, como Austrália, para obtenção de terras raras.


Os EUA planejam dividir com os aliados as informações sobre redes de suprimento de produtos importantes e buscarão potencializar a produção complementar. O governo estudará a criação de uma estrutura para o compartilhamento rápido desses itens em situações de emergência, assim como discutirá a forma de garantir estoques e capacidade de produção. Pode ser que peça aos parceiros que façam menos negócios com a China.


A questão ganhou mais urgência por causa da escassez de chips deste ano, que vem prejudicando as montadoras de automóveis.


Os EUA viram sua participação mundial na capacidade de fabricação de semicondutores despencar nas últimas décadas, segundo o Boston Consulting Group. Era de 37% em 1990, e agora foi a 12%.


Embora tenha pedido a Taiwan - que lidera o ranking, com 22% - que aumente sua produção, as fábricas daquele país já operam a todo vapor e há poucas opções para ampliar a oferta no curto prazo.


Washington já começou a preparar o terreno, tendo já convidado desde o quarto trimestre de 2020 economias ricas em tecnologias ou recursos valiosos, como Taiwan, Japão e Austrália, para que se unam em desconectaras suas cadeias de suprimento da China, em meio às tensões com Pequim.


Taiwan foi particularmente rápido em sua resposta. Autoridades de alto escalão dos EUA e Taiwan assinaram um memorando de entendimento em novembro, para promover a cooperação tecnológica em sete áreas, incluindo as de semicondutores e tecnologia 5G, além de “cadeias de suprimento seguras, sólidas e confiáveis”.


A Taiwan Semiconductor Manufacturing (TMSC), a maior fabricante de chips do mundo, concordou no segundo trimestre do ano passado em construir uma fábrica no Arizona, que deverá se tornar um símbolo das relações bilaterais. A companhia investirá US$ 12 bilhões na fábrica, que produzirá semicondutores para as forças armadas e deverá entrar em produção em 2024. O governo dos EUA está subsidiando o projeto.


O governo do Japão vem fazendo um esforço desde o ano passado para atrair a TMSC para o país, não só para estabelecer uma rede sólida de suprimento de três vias, como também para garantir ao Japão uma fonte segura de chips de ponta.


A iniciativa parece estar rendendo frutos. O Nikkei apurou neste mês que a TSMC planeja construir um centro de pesquisa e desenvolvimento de US$ 190 milhões no Japão.


Na questão das terras raras, os EUA estão se unindo à Austrália para contornar o predomínio da China. A Lynas, mineradora australiana de terras-raras, está construindo uma unidade de processamento no Texas, com financeiro do Departamento de Defesa dos EUA.


As baterias para veículos elétricos são outra área onde uma ação é necessária, uma vez que a japonesa Panasonic e a LG da Coreia do Sul estão perdendo fatia de mercado para concorrentes chinesas.


Mas, em outras áreas, como o 5G, novas cadeias de suprimento poderão se mostrar caras para as empresas americanas e japonesas, que perdem espaço para fornecedores chineses, como a Huawei Technologies, que são mais competitivas em termos de custos.


Nesse caso, a Boston Consulting prevê que a China, ajudada por estimados US$ 100 bilhões em subsídios governamentais, vai liderar o mundo, com uma participação de 24% em 2030.


Depender excessivamente da China para ter acesso a produtos importantes representa riscos para a segurança. Pequim usou regulamentações para pressionar os parceiros comerciais, como a imposição de um embargo à exportação de terras-raras para o Japão em 2010, em meio a tensões em torno das ilhas Senkaku, administradas pelo Japão, mas reivindicadas pela China, que as chama ilhas Diaoyu.


Os EUA importam cerca de 80% de suas terras-raras da China, e dependem do país para obter nada menos que 90% de alguns produtos médicos.


Reestruturar as cadeias de suprimentos tende a levar um bom tempo, especialmente na área de semicondutores. Pelo fato de o número das grandes fabricantes de chips do mundo ser limitado, essas empresas têm a alavancagem para decidir se vão ou não seguir a liderança dos EUA. Fazer isso exigirá compreensão e colaboração de outros governos.


“Ouvi que, por enquanto, os EUA farão uma avaliação intensiva de suas cadeias de suprimentos a fim de entender o quanto dependem de que países para ter acesso a semicondutores e terras-raras”, disse uma fonte do governo japonês. “Vão discutir contramedidas com aliados depois disso.”


Por Taisei Hoyama e Yu Nakamura— Nikkei, de Washington e Taipé

Fonte: Valor Econômico - 24/02/2021


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