Exportação de produtos de alta intensidade tem 2º pior trimestre

Para CNI, Brasil enfrenta “um processo estrutural de desindustrialização”


As exportações de produtos de alta intensidade tecnológica somaram US$ 1,35 bilhão no primeiro trimestre e tiveram o segundo pior resultado para o período desde o início da divulgação dos dados, em 2010. O valor só é melhor que o registrado no primeiro trimestre do ano passado, quando a demanda mundial já estava enfraquecida pelos efeitos da covid-19.


Os dados, enviados ao Valor, são de análise inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) que passará a ser divulgada trimestralmente. A avaliação é que, na falta de ações eficazes, o Brasil vem enfrentando ao longo da última década “um processo estrutural de desindustrialização” que afeta os bens mais complexos. Para a entidade, os números revelam ainda os problemas de competitividade da indústria brasileira.


“Quanto mais a gente sobe na intensidade tecnológica, menos o Brasil exporta. Isso coloca um desafio para o país”, disse o gerente de Políticas de Integração Internacional da CNI, Fabrizio Sardelli Panzini, ao Valor. “A pandemia tem um papel nesse cenário, com certeza, mas a direção já estava dada um pouco antes.”


A classificação por intensidade tecnológica busca dividir a pauta de comércio exterior de acordo com seu nível de complexidade. O patamar de alta tecnologia inclui, por exemplo, aeronaves, turbinas e peças de avião, medicamentos, produtos de química fina e máquinas especiais. O principal destino das nossas exportações nesse segmento são os Estados Unidos e as vendas para o país caíram 6% neste ano.


As exportações de bens de alta tecnologia subiram 4% de Janeiro a Março na comparação com o mesmo período de 2020 (US$ 1,29 bilhão). Apesar disso, o valor fica bem atrás do registrado nos primeiros três meses de 2018 (US$ 2,5 bilhões) e 2019 (US$ 2,1 bilhões).


Ao mesmo tempo, as exportações de produtos não industriais somaram US$ 27,2 bilhões no primeiro trimestre e tiveram uma alta bem mais expressiva, de 28% sobre o mesmo período do ano passado. As vendas de baixa intensividade tecnológica somaram US$ 12,5 bilhões (alta de 9%); as de média-baixa intensidade, US$ 7,6 bilhões (queda de 3%); e as de média-alta intensidade, US$ 6,8 bilhões (alta de 5%).


Na visão da CNI, para aumentar a participação de bens mais complexos nas exportações, o país precisa olhar para agendas estruturais, como a reforma tributária. Em paralelo, deve investir em políticas de comércio internacional que favoreçam a produção industrial, como desburocratização nas aduanas, melhoria no financiamento e acordos para evitar dupla tributação.

Esse segmento de produtos, defende, reflete o investimento em inovação, pesquisa e desenvolvimento da indústria.


“Vemos uma recuperação nas vendas em relação a 2020 [na alta complexidade], mas não sabemos se ela se sustenta porque a pandemia ainda não acabou. As cadeias de produção estão voltando ao normal e a demanda internacional está melhorando, mas são sinais que temos que decifrar nos próximos meses”, afirmou Panzini.


Também no primeiro trimestre, as importações de alta tecnologia cresceram 18%, passando para US$ 8,1 bilhões. As compras de produtos chineses subiram 46%. Assim, o país reforçou sua posição como principal fornecedor desses bens ao Brasil, com participação de 38% do total.


Por Mariana Ribeiro — De Brasília

30/04/2021

Fonte: Valor Econômico

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