Falta de componentes avança em 2022

Indústria esperava regularização no fornecimento de suprimentos para eletrônicos este ano


A escassez global de componentes para eletroeletrônicos, incluindo microprocessadores e telas de LCD, deve se estender até, pelo menos, o primeiro trimestre de 2022. A previsão vai além do esperado pelos fabricantes no Brasil, que contavam com a regularização da cadeia de suprimentos no quatro trimestre deste ano.


“Estamos disputando a alocação de linhas de produção nas fábricas terceirizadas”, diz Samir Vani, gerente geral da multinacional taiwanesa MediaTek no Brasil.

“As unidades de manufatura não conseguem dar maior capacidade de produção para atender os pedidos dos clientes.”


A empresa que fornece microprocessadores para fabricantes globais de celulares, TVs, tablets e outros dispositivos, terceiriza sua produção com empresas especializadas na manufatura de semicondutores na Ásia, como a TSMC, de Taiwan.


Além de microprocessadores e telas de LCD, segundo Vani, o mercado tem escassez de componentes de radiofrequência para celulares, que amplificam a potência do sinal dos aparelhos. Aço é outro insumo disputado. “Fabricantes de centrais de sistemas de telefonia e segurança já sofrem com a falta de aço na China”, afirma.


A falta de espaço nas linhas de produção e o aumento simultâneo na demanda dos fabricantes, que vem gerando a escassez mundial de componentes no setor desde março do ano passado, também vai gerar uma nova onda de alta nos preços de componentes nos próximos meses. “Será um aumento de preços formado por pequenos reajustes”, informa Vani. “Até porque todos os fabricantes estão tentando não repassar esses aumentos aos produtos.”


Em entrevista ao Valor em março, Helio Rotenberg, presidente da Positivo Tecnologia, empresa que fabrica computadores pessoais e corporativos no país, disse que a disputa do mercado pelas telas LCD elevou o preço por unidade de US$ 25 para US$ 52 no ano passado.


Os fabricantes não conseguiram segurar os repasses para o consumidor brasileiro. Em 2020, os preços médios de smartphones e de computadores vendidos no país tiveram altas de 24% e 26,3%, respectivamente, segundo a consultoria IDC Brasil.


A escassez de microprocessadores e telas também trava a indústria automotiva. Em março, a sul-coreana Samsung Electronics alertou para um “grave desequilíbrio” na indústria de semicondutores.


Com a retomada da produção de veículos, após um período de queda em 2020, a fabricação de microprocessadores que estava dedicada aos eletroeletrônicos desabasteceu as montadoras. Fabricantes como Volkswagen e General Motors, se viram obrigadas a reduzir a produção de carros em função da escassez de chips.


Expandir fábricas de semicondutores não é uma processo simples, explica Vani. “A expansão das linhas depende de máquinas específicas para a produção de semicondutores cuja tecnologia está concentrada em alguns fornecedores.”


O maior deles é a holandesa ASML (sigla em inglês para materiais avançados de litografia para semicondutores), que atende empresas como Intel, Samsung e TSMC.


Fundada na década de 80, em uma joint-venture entre a Advanced Semiconductor Materials International (ASMI) e a Philips, a empresa avaliada em US$ 263 bilhões, é a maior fornecedora global de máquinas de fotolitografia, que usam raios ultravioleta na produção de circuitos integrados para microprocessadores, memórias e outros componentes.


Mesmo com a previsão otimista de regularização no fluxo de componentes no início de 2022, o gerente-geral da MediaTek diz que o setor projeta um aumento adicional na demanda após a imunização contra a covid-19 e o relaxamento das medidas restritivas. “Há uma teoria de que, após a imunização, as pessoas voltarão aos shoppings e farão compras por desejo e impulso, gerando uma demanda extra para o setor”, prevê.


A produção de alguns MacBooks e iPads foi adiada devido à escassez global de componentes, apurou o jornal “Nikkei Asia”, em um sinal de que mesmo a Apple, com seu enorme poder de compra, não está imune à crise sem precedentes de abastecimento.


A escassez de chips causou atrasos em uma etapa importante na produção do MacBook - a montagem de componentes em placas de circuito impresso antes da montagem final, disseram ao “Nikkei Asia” fontes informadas sobre o assunto. Enquanto isso, parte da montagem do iPad foi adiada devido à falta de telas e componentes de tela.


Como resultado do atraso, a Apple adiou parte dos pedidos de componentes para os dois aparelhos do primeiro semestre deste ano para o segundo, disseram as pessoas. Fontes da indústria e especialistas afirmam que os atrasos são um sinal de que a escassez de chips está ficando mais séria e pode impactar empresas de tecnologia menores ainda mais.


A Apple é conhecida por sua experiência em gerenciar uma das cadeias de suprimentos mais complexas do mundo e pela velocidade com a qual pode mobilizar fornecedores. Isso ajudou a empresa a resistir a uma escassez global de componentes que já está afetando montadoras de automóveis e fabricantes de eletrônicos.


Os planos de produção dos icônicos iPhones da Apple não foram afetados até agora pela escassez de oferta, embora o fornecimento de alguns componentes para os aparelhos esteja “bastante apertado”, de acordo com duas fontes. No geral, a escassez de componentes continua sendo um problema da cadeia de suprimentos para a Apple e ainda não teve impacto na disponibilidade do produto para os consumidores. Procurada, a Apple não se manifestou.


A Apple vende cerca de 200 milhões de iPhones, mais de 20 milhões de MacBooks, 19 milhões de iPads e mais de 70 milhões de pares de AirPods por ano - o que faz dela um dos compradores de componentes mais poderosos do mundo. (Com “Nikkei Asia”)


Por Daniela Braun — De São Paulo

09/04/2021

Fonte: Valor Econômico

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