Governo francês deve ficar com 29,9% da Air France-KLM

Estado converterá empréstimo de € 3 bi em dívida perpétua e participará de aumento de capital de até € 1 bi


A França contribuirá com até 4 bilhões para reforçar o balanço da Air France-KLM, potencialmente dobrando sua participação na companhia aérea, numa tentativa de ajudá-la a superar o pior momento da pandemia de covid-19.


O Estado francês, que já controla 14,3% da empresa, converterá € 3 bilhões em empréstimos concedidos à Air France no ano passado em dívida híbrida perpétua e participará de um aumento de capital que já foi planejado, de até 1 bilhão.


No total, a participação do governo poderá aumentar para 29,9%, fazendo dele o maior acionista individual da companhia, de acordo com o que disse o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, à rádio France Inter na manhã de ontem.


Benjamin Smith, presidente-executivo da companhia afirmou: “Isso nos dará uma estabilidade... apesar de toda a incerteza por que passamos hoje em nosso setor”.


“Montamos um plano bastante abrangente de médio e longo prazo, e junto com a evolução dos acordos com os sindicatos firmados por nós, acreditamos que poderemos ter a plataforma que realmente tornará a Air France lucrativa”, acrescentou o presidente-executivo.


Essa rodada de ajuda estatal beneficiará apenas o braço francês da Air France-KLM, segundo a União Europeia (UE). O Estado holandês, que detém uma participação de 14% na companhia, não participará do novo aumento de capital, segundo informou a Air France-KLM em um comunicado, mas “continua discutindo com a Comissão Europeia possíveis medidas de reforço de capital para a KLM”.


As tensões entre a França e a Holanda atingiram um pico em 2019, quando o governo holandês aumentou sua participação para mais ou menos o mesmo patamar da fatia do Estado francês, para proteger seus interesses nacionais.


“Como a Air France-KLM ainda deverá ter um capital próprio negativo após essas transações, a companhia disse que novas transações poderão ser realizadas antes da assembleia anual de acionistas de 2022”, disseram analistas do Morgan Stanley.


Após meses de negociações entre a França e a UE para a aprovação da ajuda estatal, a Air France-KLM teve que abrir mão de 18 de seus mais de 300 direitos de pousos e decolagens no aeroporto de Paris-Orly. Isso é menos que os 24 originalmente buscados pela Comissão Europeia.


Le Maire disse que haverá restrições à tomada desses direitos de pousos e decolagens (os chamados “slots”) por companhias aéreas de baixo custo, para garantir que as empresas que operam no aeroporto obedecerão às leis francesas.


A Comissão Europeia informou ontem que a França se comprometeu em elaborar uma estratégia de saída convincente no prazo de 12 meses depois que a ajuda for concedida, a não ser que essa ajuda seja reduzida a menos de 25% do capital até lá. Além disso, enquanto a recapitalização não for amortizada, a Air France estará proibida de distribuir dividendos e promover recompras de ações. Haverá também limites às remunerações e bonificações.


Juntamente com o resto do setor, a Air France-KLM, que foi formada pela fusão da Air France com a KLM da Holanda em 2004, vem sofrendo com o impacto da covid-19 sobre o turismo e as viagens de negócios.


Benjamin Smith recebeu crédito por iniciar a recuperação da Air France antes da chegada da crise. Mas com a pandemia arruinando a demanda por viagens, o grupo registrou um prejuízo de € 7,1 bilhões em 2020. Ontem, o grupo disse que espera um prejuízo de € 1,3 bilhão para o primeiro trimestre deste ano.


A Air France está queimando € 10 milhões por dia de seu caixa, segundo Smith, com o bom momento vivido pelo mercado nos Estados Unidos podendo evitar uma maior queima de caixa por causa das restrições impostas na União Europeia.


Smith acredita que a queima de caixa do grupo chegará a zero em 2023, mas disse que “com quase € 9 bilhões em caixa... no curto e no médio prazo a liquidez não é um problema”.


Além do empréstimo direto de € 3 bilhões do governo francês, a Air France-KLM recebeu € 7,4 bilhões em empréstimos garantidos pelos governos francês e holandês para ajudá-la a atravessar a pandemia. O empréstimo apoiado pelo Estado francês, que tem metas de custos e ambientais, foi estendido até 2023, com o empréstimo holandês devendo vencer em 2025.


“Eu gostaria de acreditar que a França e o resto da Europa está provavelmente cerca de três a quatro meses atrás dos EUA. Assim, com esse raio de esperança, passamos a ter um otimismo cauteloso”, disse Smith.


“Então como vamos reagir nos próximos meses, quando há uma diferença na velocidade de aplicação e obtenção de vacinas? Bem, do mesmo jeito que temos feito ao longo do último ano. Vamos nos virar”, disse ele.


Por David Keohane — Financial Times, de Paris

07/04/2021

Fonte: Valor Econômico

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