Na crise, aeronaves viram cargueiros

Impulsionado pelo comércio eletrônico, transporte de carga ajuda desempenho das companhias


A Anac até liberou temporariamente o transporte de carga sobre os assentos dos aviões durante a pandemia — Foto: Agência O Globo



O transporte de carga está sendo fundamental para trazer sustentação aos negócios das companhias aéreas na pandemia.

Além de se recuperar mais rápido, o setor de carga sofreu menos na crise do que o transporte de passageiros. De olho em um mercado amparado sobretudo pelo comércio eletrônico, empresas como Azul e Latam ampliam a conversão de aeronaves convencionais em cargueiros e investem em terminais.


Segundo da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o transporte de carga em Abril totalizou 28,8 mil toneladas, um aumento de 135,6% sobre o mesmo mês de 2020, auge da paralisação nas operações do setor aéreo em decorrência da pandemia.

Ainda há queda na comparação com Abril de 2019, quando a covid-19 não era um problema, mas a retração é muito menor do que a registrada no transporte de passageiros. Cerca de 2,6 milhões de pessoas viajaram de avião no mês passado, um recuo de 64% sobre igual período de 2019.



O cenário colaborou para a Azul intensificar investimentos. O grupo aporta agora R$ 1,5 milhão no seu terminal de carga no aeroporto de Campinas (SP) e no ano passado investiu outros R$ 2 milhões na estrutura, disse a diretora da Azul Cargo, Izabel Reis.


Antes da pandemia a divisão representava cerca de 5% da receita da Azul, nos picos da crise atingiu 40% e hoje está na casa de 15%. Em conferência com jornalistas ontem, a executiva defendeu que o crescimento do setor, impulsionado pelo comércio eletrônico, veio para ficar. “O e-commerce representa quase que 25% a 28% dos produtos variáveis que a gente transporta”, afirmou. A Azul estima dobrar suas receitas de cargas em 2021 comparado ao registrado em 2019, totalizando aproximadamente R$ 1 bilhão.


Hoje, a Azul tem dois Boeing 737-400F em sua frota e, segundo a executiva, há estudos para trocar esses modelos pelo Airbus A321F. A ideia é usar o modelo em rotas para Argentina e Chile e, no futuro, estudar o trecho Manaus-Miami, que era feito pela Avianca.


O grupo tem ainda outros cinco aviões ATR que levam passageiros e podem ser transformados em cargueiros, além das barrigas das aeronaves em voos comerciais. A Azul está em processo de transformar em cargueiro quatro Embraer E1. Hoje, eles tiveram parte dos assentos retirados para comportar carga. “A partir de outubro a gente tem configuração totalmente sem os bancos. Começamos com dois”, disse Izabel. Com a mudança, a capacidade de transporte da aeronave sobe de 7 toneladas para algo perto de 12 toneladas.


Nesta semana, o grupo Latam anunciou a expansão do seu plano de crescimento de frota convertida em cargueiros, com a expectativa agora de incorporar de forma gradativa 10 aeronaves 767-300 Boeing Converted Freighters nos próximos três anos-- antes, o número era de oito. A ideia é chegar em 2023 com frota de 21 Boeing 767 cargueiros. Segundo a empresa, o primeiro avião será recebido no fim deste ano.


O grupo é líder no transporte de carga aérea no Brasil e respondeu, nos últimos 12 meses até Abril, por 38% do volume transportado (considerando Latam e a Absa). Azul aparece logo depois, com 32,6%, seguida pela Sideral com 11,9% e a Gol,com 8,9%.


Otavio Meneguette, diretor da Latam Cargo Brasil, disse que a demanda segue aquecida em meio à pandemia, e nesse primeiro trimestre de 2021 o grupo registrou crescimento de 36,8% nas receitas com transporte de cargas em comparação com o mesmo período de 2020.


A Anac até liberou temporariamente o transporte de carga sobre os assentos dos aviões -- quando não estão transportando pessoas. A medida tem o objetivo de colaborar com as aéreas no momento de pandemia e facilitar o transporte de equipamentos médicos. O modelo tem sido bastante usado pela Azul e Latam no Brasil. Estima-se que o transporte de cargas na cabine de passageiros pode elevar em até 50% a capacidade, a depender do modelo.


Já a Gol usa os compartimentos na barriga das aeronaves para o transporte de cargas via a GOLLOG. Na frota, a empresa tem os modelos Boeing 737- 700, 737-800 e 737-800 MAX. A empresa não possui aviões cargueiros. A estimativa da empresa é que, com a chegada dos modelos Max na frota, dentro do plano de renovação, o grupo consiga melhorar a eficiência dos voos e reduzir custos - o MAX consome cerca de 15% menos combustível do que o modelo NG. Na Gol, a receita de passageiros no primeiro trimestre caiu 51,8% na comparação com 2020, ao passo que a de carga recuou 26,7%.


O aquecimento do setor não é uma exclusividade do Brasil. Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), o transporte de carga deve apresentar crescimento na demanda (medida em toneladas de carga por quilômetro, ou CTK) de 13,1% em 2021 na comparação com 2020, sobretudo com a força do comércio eletrônico.


De acordo com a associação, o setor de carga representava entre 10% e 15% das receitas das aéreas antes da crise. Em 2020, a fatia subiu para 35%. A estimativa é de uma leve normalização este ano, com uma participação de 30%.


Por Cristian Favaro — De São Paulo

21/05/2021

Fonte: Valor Econômico

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