O que importa nas reuniões migrou do café para o chat

A colunista Stela Campos fala sobre o poder das interações informais e como será a mistura nesses encontros dos quem estão juntos no escritório e os que ficaram remotos






Quando estávamos todos no velho escritório presencial, qualquer esbarrão, proposital ou inocente, podia levar a uma interação produtiva, que podia progredir para uma troca de sorrisos ou até um cafezinho na copa. Com o trabalho remoto, muitos de nós perdemos essa oportunidade natural de nos conectarmos com os colegas de trabalho. O que nos restou foi uma infinidade de reuniões virtuais, que muitos profissionais já não aguentam mais.


Um executivo outro dia me disse que a sensação era de que qualquer ação hoje exige uma reunião para justificá-la. Para ele, convocar esses encontros on-line era uma forma respeitosa de incluir um par, superior ou subordinado na tomada de decisão. Mas, por mais bem intencionada que essa atitude parecesse, o resultado para ele era extenuante. Sua agenda passou a ficar tomada por reuniões virtuais, uma atrás da outra, sem um respiro sequer.


E é sabido que o esforço cognitivo que o nosso cérebro faz ao participarmos de encontros via tela é muito maior do que se nos encontrássemos com as pessoas no corredor da firma. Nos esforçamos muito para tentar entender os signos que conseguimos perceber naquele quadradinho iluminado. Levante a mão (ou a mãozinha) quem não está cansado de ter que manter a compostura nas videoconferências.


Há quem use como desculpa a conexão ruim para desligar a câmera, e muitas vezes o problema é real, mas esse sumiço pode sugerir que a pessoa está fazendo outra coisa enquanto você está lá se esforçando para falar bonito no vídeo. Uma pesquisa recente das universidades Pardue, Yale e MIT mostrou que desligar a câmera durante uma reunião ajuda a reduzir em até 96% a pegada de carbono de uma pessoa, o que pode ser um alento para quem quer fugir da câmera “com propósito”.


Falar sem vídeo, inclusive, virou mania entre os executivos brasileiros que ocuparam a nova rede social “Clubhouse”, onde só se interage por voz. Mas no novo mundo que se desenha para o pós-pandemia parece que as reuniões por Zoom vieram para ficar. Mesmo com a retomada do trabalho em muitas empresas no modelo híbrido, com uma parcela dos funcionários no escritório e outra remota, muito do que se fazia presencialmente vai passar a ser feito virtualmente, incluindo muitas reuniões. E quem ficar trabalhando no home office vai ter que criar as suas próprias estratégias de sobrevivência e que não dizem respeito apenas a saber se comportar em videoconferências.


No mundo do trabalho híbrido, especialistas dizem que o maior desafio será quando alguns participantes das reuniões estiverem se encontrando presencialmente no escritório e outros continuarem participando remotos. Estes últimos tendem a perder a melhor parte da história que geralmente acontece antes e depois do timing oficial da reunião. É o famoso acordo no cafezinho, onde são trocados elogios, apoios informais e onde ideias e projetos podem ganhar corpo e insights. Propostas inovadoras entre diferentes áreas da organização podem surgir de repente e bem longe dos encontros formais.


Uma executiva de RH, cuja empresa multinacional ensaia voltar da pandemia no modelo híbrido de trabalho, me disse que se preocupava com essa exclusão do profissional remoto nessas interações casuais. Para tentar minimizar esse prejuízo, ela está começando a desenhar um modelo de reunião para que mesmo quem estiver no escritório, em um mesmo ambiente, realize as reuniões a partir do seu computador ou celular. Seria uma forma de garantir condições mais igualitárias de participação. O que pode não funcionar se quem estiver no escritório sair correndo para fofocar com o colega assim que desligar o call.


Engana-se, no entanto, quem pensa que a conversa e os acordos paralelos sumiram no mundo virtual. Não é raro ver o chat a mil por hora enquanto uma reunião está em curso. As pessoas trocaram o encontro no café da firma pelo bate-papo e comentários nos aplicativos. Na prática, as decisões continuam a ser influenciadas pelas interações pessoais, não se iluda. Muitos acreditam que se aprenderem algumas regras de comportamento para reuniões virtuais serão mais bem-sucedidos - basta dar um Google em “como conduzir reuniões” e aparecerão mais de 9 milhões de resultados. Mas apenas saber se comportar não é tudo.


As reuniões virtuais têm inúmeras vantagens, milhares de estudos mostram isso. Elas são mais rápidas, podem incluir um maior número de pessoas, mais níveis hierárquicos e, se bem planejadas, podem ser bem produtivas. Aprenda apenas que muitas decisões dependem de interações que não acontecem ali e se você está sendo excluído da bolha que se diverte e fofoca enquanto as reuniões acontecem, não desanime e pense em um jeito de fazer suas ideias chegarem a quem realmente interessa.

Por: Stela Campos

Fonte: Valor Econômico - 22/02/2021


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