Pandemia e crescimento na China

Atualizado: Set 9

É muito provável que expansão fique abaixo das expectativas






No segundo trimestre de 2021, o PIB da China cresceu 7,9% na comparação anual. É um desempenho relativamente forte, ainda mais diante dos impactos persistentes da pandemia da covid-19 na economia mundial. Para a China, porém, é uma decepção: a mediana das estimativas dos economistas consultados pela Caixin apontava expansão de 8,2%.


Em termos gerais, os economistas chineses concordam que o crescimento potencial da China é de 6%. Portanto, levando em conta o “efeito base”, as taxas de crescimento anual da China nos quatro trimestres de 2021 deveriam ser 19,1%, 8,3%, 6,7% e 5,5%. A expansão no primeiro trimestre, no entanto, foi de 18,3%. Esse desempenho abaixo do esperado é, em grande medida, resultado da política econômica oficial.


A China ainda tem muito a avançar na vacinação. Embora tenha aplicado até agora 1,9 bilhãode doses (a maior parte da Sinovac e Sinopharm, ambas requerendo duas doses), precisará vacinar mais de 83% de sua população para atingir a imunidade de rebanho

Embora as autoridades chinesas tenham adotado políticas monetárias e fiscais expansionistas no início da pandemia, elas também se mostraram altamente inclinadas a normalizá-las, por medo de que alimentassem a inflação e agravassem os riscos financeiros. A contenção fiscal foi particularmente rápida. No primeiro semestre de 2021, os gastos gerais do governo da China cresceram apenas 4,5%, enquanto a arrecadação cresceu 21,8%. Embora isso seja em parte reflexo do efeito base, a política fiscal sofreu inegavelmente um aperto. De fato, no primeiro semestre de 2021, o déficit no orçamento público da China foi 1,6 trilhão de yuans (US$ 247 bilhões) menor do que em 2020.


A política monetária continuou acomodatícia, mas o Banco do Povo da China tem sido cauteloso, para dizer o mínimo. No primeiro semestre de 2021, o financiamento social subiu 17,7 trilhões de yuans. Esse aumento é 3,1 trilhões de yuans menor que o do mesmo período de 2020. Com esse quadro como pano de fundo, não deveria ser surpresa que os indicadores econômicos chineses cada vez mais apontem para uma desaceleração do crescimento.


Agora, os líderes chineses vêm se mexendo para corrigir essa desaceleração. No início de julho, o BC, na esperança de estimular um aumento na concessão de crédito, anunciou que reduziria a exigência de reservas para todos os bancos em 50 pontos-base.


Poucas semanas depois, o Gabinete Político do Partido Comunista, no Comitê Central da China, divulgou um comunicado reconhecendo que “a economia doméstica da China ainda está instável e desequilibrada” e defendendo uma aceleração na “construção de importantes projetos planejados no 14º Plano Quinquenal”. O mercado interpretou isso, em grande medida, como sinal de que o governo adotará uma política macroeconômica expansionista na segunda metade do ano.


Um ajuste das políticas como esse, embora ainda pequeno, aumentou as esperanças de que a expansão se recupere no segundo semestre de 2021, possivelmente até atingindo um nível coerente com a taxa de crescimento potencial. Essa mudança nas políticas, contudo, pode não ser suficiente. Em vez delas, a recuperação econômica da China pode muito bem depender, acima de tudo, de como vai se desenrolar a luta contra a covid-19.


Desde que as medidas de confinamento foram levantadas em Wuhan no início de abril de 2020, a China conseguiu evitar grandes surtos locais e manter o número de novos casos de covid confirmados na faixa de dois dígitos baixos. Muitos acreditaram que a China rumava para acabar completamente com as infecções locais do coronavírus.


Essas esperanças desmoronaram em julho, quando os testes de muitos trabalhadores aeroportuários, em Nanjing, deram positivo, em verificações de rotina. Em questão de dias, a variante delta, altamente contagiosa, disseminou-se para 22 cidades de dez províncias. Os casos totais confirmados na China aumentaram de 251, em 16 de julho, para cerca de 2 mil.


O governo, ainda comprometido em derrubar os contágios a zero, reagiu rapidamente, com lockdowns em áreas de alto risco, o endurecimento das restrições a viagens em áreas de risco médio e colocando cerca de 100 mil pessoas em quarentena. Mas situações similares, ainda que em menor escala, aconteceram antes. E outras, sem dúvida, voltarão a emergir, uma vez que boa parte do mundo ainda está sem vacinar e há variantes do vírus cada vez mais contagiosas surgindo.


Os custos econômicos dessas medidas - incluindo restrições a viagens internacionais - são extremamente altos. Em vista disso, alguns virologistas, epidemiologistas e economistas agora argumentam que a China precisa abandonar sua política de tolerância zero e aprender a conviver com vírus.


A resistência a essa abordagem, entretanto, continua forte. Afinal, foi a abordagem rigorosa da China - possibilitada por seus arranjos institucionais e tradição cultural - que mantiveram o país praticamente livre da covid-19 por muitos meses. E, embora os custos sejam altos, especialmente para o turismo e serviços relacionados, a China tem condições de arcar com isso.


Um ponto importante é que a China ainda tem muito a avançar na vacinação. Embora tenha aplicado até agora 1,9 bilhão de doses (a maior parte de vacinas próprias, da Sinovac e Sinopharm, ambas requerendo duas doses), precisará vacinar mais de 83% de sua população para atingir a imunidade de rebanho, segundo seu epidemiologista de maior hierarquia, Zhong Nanshan.


É seguro dizer que a luta contra a covid-19 está longe de ter acabado. Para a China, isso significa que é praticamente inevitável o surgimento de mais surtos de covid-19 em pequena escala - e das decorrentes desestabilizações econômicas. Em vista disso, é muito provável que o crescimento total da China em 2021, fique abaixo das expectativas prévias do mercado.


Isso não que dizer que se deve minimizar a importância das políticas monetárias e fiscais. Uma abordagem mais expansionista pode ser de grande ajuda para compensar o impacto econômico da pandemia. Em particular, muitas pequenas e médias empresas que foram golpeadas duramente pela pandemia precisam desesperadamente de ajuda, e o governo ainda tem espaço em suas políticas econômicas para oferecê-la. Na verdade, com a combinação certa de políticas, a China pode alcançar uma boa taxa de crescimento no segundo semestre de 2021 e mais além. (Tradução de Sabino Ahumada)


Yu Yongding é ex-membro do comitê de política monetária do Banco do Povo da China de 2004 a 2006 e ex-diretor do Instituto de Economia e Política Mundial, da Academia Chinesa de Ciências.




Por Yu Yongding

26/08/2021

Fonte: Valor Econômico