Política chinesa de covid zero ameaça as cadeias globais

País tenta conter a onda da variante ômicron e restrições adotadas pelo governo podem paralisar a produção em fábricas de vários setores


A batalha da China para conter a variante ômicron do coronavírus poderá sufocar as cadeias de abastecimento globais, já bastante pressionadas, alertam gerentes de produção e analistas, ameaçando a produção de bens que vão de smartphones a móveis.


O governo chinês está determinado a evitar qualquer transmissão em grande escala da covid-19 no país, especialmente às vésperas de sediar os Jogos Olímpicos de Inverno, no mês que vem. Por isso, se apressou em impor restrições para manter sua meta de “covid zero”.


O “lockdown” na cidade de Xi’an, no centro do país, deverá entrar na sua terceira semana, forçando cerca de 13 milhões de pessoas a ficar em suas casas. Medidas como testagem obrigatória foram imposta em Tianjin, cidade portuária de 14 milhões de habitantes a 100 km de Pequim, em várias cidades da província de Henan (onde fica a maior unidade de produção de iPhones do mundo, da empresa taiwanesa Foxconn), e partes de Zhongshan e Zhuhai, centros industriais perto de Hong Kong.


As restrições são um teste para as multinacionais, para saber se elas agora estão mais bem equipadas para lidar com a interrupção de sua produção, do que durante as ondas anteriores da pandemia.


“Com a covid, o feriado do Ano Novo Lunar e os Jogos Olímpicos ocorrendo ao mesmo tempo, podemos ter uma tempestade perfeita”, diz Ambrose Conroy, presidente executivo da Seraph, consultoria americana especializada em cadeias de abastecimento. “As empresas estão um pouco mais bem preparadas para lockdowns de curta duração, mas um fechamento mais amplo nas próximas semanas causaria estragos.”


Um executivo de uma empresa taiwanesa em Shenzhen diz que um eventual lockdown agora no centro industrial do sul da China seria “pior do que em 2020”.


Após o vírus se espalhar de Wuhan para a China toda no feriado do Ano Novo Lunar em 2020, o governo bloqueou o transporte em várias partes do país. As restrições impediram centenas de milhões de trabalhadores migrantes, que tinham viajado no feriado, de voltar ao trabalho. Fábricas foram obrigadas a fechar por semanas.


“Desta vez estou ainda mais preocupado porque as cadeias de abastecimento globais já estão muito pressionadas: já há grandes atrasos no transporte e a falta de componentes ainda é um problema”, diz Didier Chenneveau, sócio da consultoria McKinsey.


As mais novas restrições já mostraram às multinacionais o que está em jogo. As montadoras Toyota e Volkswagen fecharam suas fábricas em Tianjin na semana passada. Em Xi’an, a fabricante de chips da Samsung teve problemas para fazer funcionários voltarem ao trabalho por causa do lockdown.


A Toyota, que sofreu uma grande interrupção na sua cadeia de fornecimento no sudeste da Ásia no ano passado, disse que o fechamento da joint-venture em Tianjin “provavelmente não causará um impacto mundial em nosso fornecimento, já que nossos ajustes progrediram consideravelmente”.


Mas as infecções podem se espalhar ainda mais. Pequim informou no sábado o seu primeiro caso da ômicron transmitido localmente, a poucas semanas da abertura da Olimpíada de inverno na capital.


Autoridades disseram que a pessoa infectada não esteve fora de Pequim em duas semanas, nem teve contato com outros casos confirmados. O condomínio de apartamentos em que a pessoa mora foi isolado e 2.430 pessoas foram testadas por causa desse caso, informou a mídia estatal chinesa.


Um caso em Xangai, relatado na quinta-feira, também foi confirmado como da variante ômicron, segundo disse uma autoridade da Comissão Nacional de Saúde.


Alguns gerentes de produção acreditam que o foco de Pequim na prevenção a qualquer risco aos Jogos de Inverno protegerá os locais próximos da capital de uma crise grave provocada pela ômicron. “É claro que é um grande azar ser atingido por um lockdown”, diz um executivo de Taiwan. “Mas a atenção das autoridades a lugares como Tianjin também significa que elas farão de tudo para ajudar a cidade a seguir trabalhando”.


A cidade de Ningbo, onde fica o terceiro maior porto de contêineres do mundo, teve casos e proibiu a entrada de caminhões, agravando o congestionamento de navios.


Na Samsung Electro-Mechanics, fabricante de componentes que tem uma fábrica em Tianjin, o governo local ordenou aos funcionários que não deixassem a cidade no feriado do Ano Novo Lunar, para evitar o risco de infecções.


“São medidas preventivas que fazem sentido. Aqui, estamos menos preparados”, disse um executivo de Taiwan, cuja empresa está sob pressão para deixar os funcionários voltarem para casa no feriado porque já não puderam fazer essa viagem por dois anos.


Analistas disseram que, se os contágios aumentarem, as empresas serão tão atingidas quanto há dois anos, uma vez que poucas delas transferiram grandes partes de suas cadeias para fora da China.


“Alguém realmente reduziu os riscos de suas cadeias de suprimento? Alguém mudou a sua produção baseada na Ásia de volta para casa ou para mais perto de casa em larga escala? A resposta é não, porque essas coisas levem muito tempo”, disse Chenneveau.


Uma pesquisa da McKinsey constatou que só 60% das empresas pesquisadas aumentou os estoques críticos e só a metade diversificou o fornecimento.


A Mitsubishi Electric está construindo uma plataforma para compartilhar informações de bancos de dados com fornecedores, sobre peças que estão em falta, mas ela só será concluída em 2025.


Os fechamentos induzidos pelo vírus em outras economias na verdade aumentaram a dependência de muitos setores da China, pelo menos no curto prazo.


Um exemplo está na produção de capacitores cerâmicos multicamadas (MLCC, na sigla em inglês), componente para armazenamento de energia usado em qualquer produto que tenham circuitos elétricos. Perto de metade da capacidade mundial de produção de MLCC está na China, segundo a empresa de pesquisas Trendforce.


“Os MLCCs estão em falta e muitas vezes cada unidade é especializada em fabricar um produto exclusivo. Portanto, quando uma fábrica está parada, nenhuma outra pode compensar isso”, diz Forrest Chen, analista de Trendforce especializado em MLCC.


A Murata, fabricante japonesa de MLCCs, está construindo uma unidade na Tailândia para reduzir a concentração excessiva na China. Mas a companhia também começou a fabricar alguns produtos em sua unidade na cidade de Wuxi, no leste da China, após a pandemia forçar o fechamento da fábrica japonesa que fabricava só MLCCs.


“Todo mundo está tentando ter segundos fornecedores na China. Isso inclui achar fontes alternativas de componentes, além de identificar locais em suas próprias fábricas que possam atuar como back-up”, diz um consultor de empresas de produtos eletrônicos.


Mas nenhum desses arranjos chegou longe o suficiente. “São necessários de três a cinco anos para se conseguir uma diversificação geográfica”, explica Chen.


Por Kathrin Hille, Eri Sugiura, Leo Lewis e Primrose Riordan — Financial Times, de Taipé, Tóquio e Hong Kong

17/01/2022

Fonte: Valor Econômico