Sanção à Rússia é “ameaça” ao comércio, diz Carlos França

Para chanceler, medidas inviabilizam pagamento de exportação


Carlos França: Brasil é favorável ao cessar-fogo imediato, à proteção de civis e de infraestrutura civil, ao acesso desimpedido aos serviços humanitários — Foto: Cristiano Mariz


Crítico ao modo como os países do Ocidente reagiram à invasão da Ucrânia, o ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, considera que as sanções econômicas impostas à Rússia vão gerar consequências negativas principalmente para as nações em desenvolvimento.


Para ele, a ofensiva contra o país “praticamente inviabiliza” os pagamentos em operação de exportação e importação com os russos e representa uma “perigosa ameaça” ao sistema de comércio internacional pelos próximos anos.


“O grande risco das ações do modo como elas têm sido implementadas é que suas consequências recairão no médio prazo mais sobre o mundo em desenvolvimento do que sobre a própria Rússia, enquanto resguardam os interesses de países desenvolvidos de seus piores efeitos”, afirmou França, que classificou as medidas adotadas de “unilaterais e seletivas”.


Ontem, o chefe do Itamaraty fez um discurso e respondeu a questionamentos de parlamentares durante sessão do plenário do Senado dedicada a discutir os desdobramentos do atual conflito no Leste Europeu.


Para o chanceler, a reação do mundo ocidental à invasão da Rússia apenas preserva “interesses urgentes de alguns países”, relacionados ao fornecimento de petróleo e gás na Europa. Ele disse que, por outro lado, as mesmas medidas atingem o suprimento de produtos essenciais à sobrevivência de “grande parcela da” população mundial.


“Os fertilizantes de que nós no Brasil precisamos são igualmente essenciais para evitar a fome e garantir a sobrevivência econômica e a estabilidade política das nações em desenvolvimento - ou seja, de países que respondem por três quartos da população global”, afirmou França.


De acordo com o ministro, o Brasil tem votado e se pronunciado tanto no Conselho de Segurança quanto no de Direitos Humanos e também na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de acordo com a “tradição diplomática” do país.


Neste sentido, o chanceler afirmou que o Brasil é favorável ao cessar-fogo imediato, à proteção de civis e de infraestrutura civil, ao acesso desimpedido aos serviços humanitários e à pronta solução política do atual conflito baseada nos acordos de Minsk, assinado tanto pela Rússia quanto pela Ucrânia, em 2015, e aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU, no mesmo ano.


Em sua ida ao Senado, o ministro justificou a declaração de solidariedade feita pelo presidente Jair Bolsonaro à Rússia, durante viagem a Moscou no início de fevereiro. Segundo ele, a manifestação do presidente veio no sentido de reforçar a posição do Brasil como “parceiro confiável”.


“Entendo a ideia de confiabilidade. O presidente falou de solidariedade, no sentido que tem essa palavra de solo, firme, tendo o Brasil como um parceiro confiável da Rússia, dentro dos princípios que nós respeitamos”, disse o chanceler.


Na época, a declaração de Bolsonaro gerou críticas por passar a impressão de que o governo brasileiro havia escolhido um lado na guerra entre Rússia e Ucrânia, dias antes do início da invasão das tropas russas ao país vizinho. O próprio presidente negou tal entendimento.


Ontem, o ministro chegou a criticar declarações que teriam partido do governo americano, em Washington, contrárias ao tom da manifestação de Bolsonaro. “Não julgamos adequado que um país, qualquer país, possa fazer uma interpretação das declarações do nosso chefe de Estado”, afirmou França.


Questionado sobre as possíveis posições antagônicas sobre política externa defendidas por Bolsonaro e o corpo diplomático do Itamaraty, França preferiu contemporizar a questão. “Não vejo uma dicotomia entre a posição da Presidência da República e a do Itamaraty”, assegurou.


O ministro usou trecho da Constituição para dizer que o papel dos ministros é de auxiliar o chefe do Poder Executivo, o presidente, na tomada de decisões. “As posições são discutidas com o presidente da República. Eu levo a ele as visões que nós temos. Com postura tradicional, ele nos orienta.”



Por Rafael Bitencourt e Rafael Walendorff — De Brasília

25/03/2022

Fonte: Valor Econômico

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