Uruguai deve ser o primeiro a ter passaporte covid na AL

Documento deve ser testado em junho, quando espera-se que fronteiras internacionais possam ser reabertas

O Uruguai deve ser o primeiro país da América Latina a ter um passaporte covid para viagens internacionais. Autoridades avançam nos trâmites para poder ter o documento em junho, quando espera-se que fronteiras internacionais possam ser reabertas. Atualmente, o país passa por um dos piores momentos da pandemia.


O passaporte é um documento emitido por um governo que atesta que a pessoa tomou uma vacina. Pode incluir ainda outras informações, como histórico de testes de covid-19. Os países precisam, em seguida, negociar a aceitação mútua desse documento, para facilitar as viagens internacionais.


Em 10 de abril, o Uruguai participou de um projeto piloto do chamado Travel Pass, desenvolvido pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês). O certificado digital foi testado com passageiros em um voo Madri-Montevidéu da Iberia.


“A intenção é continuar avançando para instrumentalizar essas ferramentas tecnológicas que nos permitirão, no momento de abrir nossas fronteiras, fazê-lo de forma segura e confiável”, diz Remo Monzeglio, vice-ministro do Turismo do Uruguai. O país quer usar o certificado digital não só para viagens externas, mas internamente também, para acesso a estádios e outros locais com aglomerações.


O governo pretende combinar o que vem chamando de “passe verde” (para estabelecimentos, eventos e deslocamentos internos) e o passaporte sanitário, que é utilizado para residentes entrarem no Uruguai mediante teste negativo de covid feito 72 horas antes. “Isso permitirá a coexistência de pessoas vacinadas e não vacinadas, em proporções razoáveis”, diz.


Ainda não se sabe se terá acesso ao passaporte covid só quem foi vacinado ou também quem teve contato com o vírus e se recuperou. O país quer começar a testar o certificado digital em Junho.


O debate sobre o passaporte covid ocorre no momento em que o país avança na vacinação, mas as curvas de casos e mortes diárias são altas. Até sábado, o Uruguai havia vacinado 33,5% da sua população. O país vem aplicando diariamente 0,96 dose por cada 100 habitantes, segundo média móvel de sete dias do site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford.


No ritmo atual, de 34,2 mil doses aplicadas diariamente, o Uruguai demorará três meses para vacinar 75% da população segundo o Vaccine Tracker, da Bloomberg.


O país vive um dos piores momentos da pandemia. São mais de 2.654 casos diários, na média móvel de sete dias do site Worldometers. Essa taxa equivaleria a mais de 165 mil casos por dia no Brasil, dada a população 62 vezes maior que a do Uruguai. A média de mortes diárias está em 55, proporcionalmente semelhante à do Brasil.


Na semana passada, a União Europeia (UE) aprovou o passaporte covid para retomar o turismo no bloco e começará a testá-lo neste mês. A Comissão Europeia disse que UE e EUA negociam retomar as viagens, hoje proibidas, com uso de um passaporte covid, mas que a UE só aceitaria a entrada de pessoas que tomaram vacinas aprovadas pelo bloco.


No Uruguai, das 3,75 milhões de doses encomendadas, 2 milhões são da vacina da Pfizer / BioNTech e 1,75 milhão da Sinovac, segundo o Covid-19 Vaccine Market Dashboard, do Unicef. O país recebeu em Abril 48 mil doses do imunizante da AstraZeneca, via consórcio Covax, da Organização Mundial da Saúde (OMS).


“Acredito que muito em breve todas essas vacinas serão aceitas pela ampla maioria dos países”, diz Monzeglio. “Alguém imagina que a UE fechará as portas aos turistas chineses que vêm de um país que, com suas vacinas, está lutando de maneira exemplar contra essa pandemia? Não tenho dúvida de que essas portas irão se abrindo.”


Nos demais países da América do Sul, o debate sobre o passaporte covid mal começou. O Chile estuda um passe verde, como o adotado em Israel, que permite a pessoas vacinadas participarem de grandes eventos e viajar dentro do país.


Para Jaime Labarca, da PUC do Chile, no entanto, o tema não é prioridade neste momento. “Apesar de 50% da população ter tomado uma dose da vacina, a pandemia avança. A variante P.1 hoje está por trás de 50% dos novos casos. Há um mês respondia por 10%”, diz.


Ele argumenta ainda que 10% dos vacinados no Chile receberam o imunizante da Pfizer/ BioNTech e 90% tomaram o chinês Sinovac, o que poderia ser um obstáculo para entrar na Europa, por exemplo.


O ministro da Saúde chileno, Enrique Paris, criticou o passaporte europeu por excluir vacinas chinesas e também a russa Sputnik. “Somos totalmente contra a discriminação”, disse, ao frisar que a OMS deveria ditar tais normas.


Na Argentina, governadores no norte do país analisam a ideia de um passaporte covid para deslocamentos na região do país.

Na Colômbia, o governo estuda o tema. Países como Peru e Bolívia por ora ainda não discutem o passaporte.


O Brasil tem tido conversas preliminares com seus vizinhos. Além disso, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) tem conversado com autoridades aeronáuticas de outros países sobre o eventual uso de um passaporte sanitário para restabelecer

voos internacionais.

Por Marsílea Gombata — De São Paulo

03/05/2021

Fonte: Valor Econômico